O impacto das tarifas impostas pelo governo de Donald Trump às exportações brasileiras está longe de ser uniforme pelo país. Um levantamento feito a partir de dados de 2025 do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic), publicado neste sábado (1º), mostra que Ceará, Espírito Santo e Santa Catarina são as unidades da federação com a maior parcela das exportações totais sujeita às sobretaxas americanas.

O caso mais grave é o cearense. O estado envia 46% de suas vendas externas aos Estados Unidos e tem 91,3% desse comércio afetado por sobretaxas — o que faz com que cerca de 42% de todas as exportações do Ceará estejam agora sujeitas a tarifas. Além dos semimanufaturados de aço, entram na conta mel, granito e calçados de borracha. Os americanos são de longe os principais compradores dos cearenses; o segundo destino, o México, responde por 7,1% das exportações do estado.

"O Ceará foi muito afetado desde o início das tarifas porque grande parte da sua pauta de exportação é da indústria siderúrgica, tarifada pela seção 232. Além disso, a pauta exportadora é muito concentrada nos EUA", afirmou ao levantamento João Mário de França, pesquisador do FGV Ibre.

O grau de abertura da economia cearense — soma de exportações e importações em relação ao PIB — é de apenas 9,8%, segundo estudo de 2024 dos pesquisadores Carlos Nathaniel Rocha Cavalcante e Rodrigo De-Losso publicado pela Fipe. Ainda assim, Cavalcante pondera que o efeito tende a se espalhar: "Como a siderurgia mobiliza energia, logística, insumos, serviços especializados e emprego ao longo da cadeia, um choque sobre as exportações de aço dificilmente fica restrito ao valor vendido ao exterior. Ele pode se propagar para fornecedores, trabalhadores e atividades ligadas à operação industrial e portuária."

Espírito Santo, Santa Catarina e os estados poupados

O Espírito Santo é a unidade da federação com o maior grau de abertura do país: exportações e importações equivalem a 62,7% do PIB estadual, segundo o mesmo estudo da Fipe. As tarifas atingem 68,6% das exportações capixabas aos Estados Unidos, destino de 27% de todas as vendas externas do estado — o equivalente a 18,5% do total exportado. Os itens mais afetados são semimanufaturados de ferro ou aço, pedras de cantaria e pastas químicas de madeira.

"A abertura comercial do Espírito Santo é praticamente o dobro da média brasileira, e há produtos com muito peso na pauta exportadora. As tarifas afetam em cheio a nossa economia", disse Antônio Ricardo Freislebem da Rocha, diretor-geral do Instituto Jones dos Santos Neves, órgão do governo capixaba que realiza estudos econômicos. Ele pondera, porém, que "o impacto das tarifas não é sinônimo de fechamento do mercado", já que pode haver diversificação de destinos ou manutenção da compra americana em produtos sem substitutos.

Santa Catarina fecha o pódio: 12,1% do que o estado exporta vai aos Estados Unidos, 80,7% dessas vendas estão tarifadas e 9,7% das exportações totais são impactadas, com destaque para madeira e peças automotivas como acessórios de carroçarias e freios. O grau de abertura catarinense é de 45,3%.

Alagoas tem 98,4% do seu comércio afetado por sobretaxas — o item mais vendido aos americanos é o açúcar de cana, taxado na lista dos 25% e isento na de 12,5%, com US$ 65,6 milhões exportados no último ano. Já São Paulo, maior exportador do país para os Estados Unidos, tem 41,5% dessas vendas atingidas, mas apenas 7,7% do total exportado pelo estado, beneficiado pelas isenções concedidas à indústria aeronáutica e ao suco de laranja.

No extremo oposto estão Mato Grosso do Sul (1,4%), Goiás (1,2%) e Mato Grosso (0,2%), praticamente ilesos porque a carne, principal produto que mandam aos americanos, ficou de fora das sobretaxas. "Fala-se muito nas perdas do Brasil, mas olhando de forma regional, vê-se diferenças expressivas. Há regiões que sofreram menos, como o Centro-Oeste, e outras mais afetadas, como o Nordeste", resumiu França.

O que já está em vigor

As tarifas atuais vêm de duas frentes. A primeira é a sobretaxa de 25% resultante da investigação da seção 301 sobre práticas comerciais consideradas injustas pelos Estados Unidos. A segunda é a de 12,5%, anunciada em 23 de julho e em vigor desde a madrugada de 24, sob a alegação de que o Brasil não teria mecanismos eficazes para barrar a importação de mercadorias produzidas com trabalho forçado. Quando as duas incidem sobre o mesmo produto, a alíquota chega a 37,5%.

Segundo dados divulgados pelo Mdic em 24 de julho, US$ 6,6 bilhões em exportações brasileiras — 16,5% do total enviado aos Estados Unidos — estão sujeitos à alíquota cheia de 37,5%, e 23,1% das vendas ao país são afetadas pelas novas medidas. Outros 52,7%, ou US$ 21,3 bilhões, seguem fora das novas sobretaxas. O Brasil exportou US$ 40,4 bilhões aos americanos em 2024, US$ 37,7 bilhões em 2025 e US$ 17,4 bilhões no primeiro semestre de 2026.

O governo brasileiro classificou a medida de 12,5% como "arbitrária" e "injustificada" e acionou a Organização Mundial do Comércio em 27 de julho. Os autores do levantamento ressalvam que os percentuais por estado são uma estimativa: a classificação usou o Sistema Harmonizado de seis dígitos, criado pela Organização Mundial das Alfândegas, e dentro de uma mesma categoria pode haver itens isentos e taxados. Segundo o próprio Mdic, não existe tabela de conversão que compatibilize as especificações de comércio dos Estados Unidos e do Brasil.