A gasolina vendida nos postos de todo o país passa a ter 32% de etanol anidro na mistura a partir deste sábado (1º), contra os 30% que vigoravam até julho. A mudança, chamada de E32, foi aprovada pelo Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) em 14 de julho e tem validade de 180 dias, prorrogáveis uma única vez por igual período.
Segundo o Ministério de Minas e Energia (MME), a decisão responde à volatilidade da oferta global de combustíveis e busca reduzir a dependência de combustíveis fósseis importados, ampliando a presença de biocombustíveis na matriz energética. A pasta calcula que a medida evita a importação de 900 milhões de litros de gasolina por ano. A base legal é a Lei nº 14.993/2024, a Lei do Combustível do Futuro.
Quando anunciou a intenção de subir o teor, em 9 de junho, o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, afirmou que os estudos técnicos permitiam chegar ao E32 e que a mudança atendia a uma demanda apresentada pelo setor. Ele citou segurança energética, estabilidade do preço dos combustíveis e descarbonização.
O que muda no bolso e no motor
A estimativa do governo é de redução média de até R$ 0,03 por litro no preço da gasolina nos postos. O valor, porém, não é promessa nem obrigação de repasse por distribuidoras e revendedores.
Do outro lado da conta está o consumo. Como o etanol tem menor poder calorífico que a gasolina — um quilograma de etanol hidratado fornece cerca de 6.300 kcal, contra cerca de 10.400 kcal da gasolina A —, o gasto de combustível tende a subir tanto em modelos flex quanto em carros movidos só a gasolina. Estimativas de mercado apontam perda de eficiência energética de 1% a 2% na passagem do E27 para o E32, dependendo do motor, diferença que tende a ser quase imperceptível no uso diário para a maioria dos motoristas.
Testes coordenados pelo MME e executados pelo Instituto Mauá de Tecnologia (IMT) avaliaram desempenho, dirigibilidade, partida a frio, consumo e emissões, em laboratório e em condições reais de uso. A conclusão foi de comportamento equivalente ao da mistura anterior, sem impacto relevante no funcionamento dos veículos, inclusive nos de motores não flex.
A Federação Nacional do Comércio de Combustíveis e de Lubrificantes (Fecombustíveis) tem avaliação diferente: a entidade alertou para o risco de problemas no desempenho e na durabilidade de veículos leves e motocicletas, com possível aumento do custo de manutenção, e afirmou que o controle de qualidade não substitui uma avaliação técnica prévia, transparente e abrangente. Em orientação publicada pela federação, os sinais iniciais a observar em carros exclusivamente a gasolina e em modelos antigos são dificuldade de partida com o motor frio e marcha lenta instável; a recomendação é aguardar de 10 a 30 segundos depois de ligar o motor, evitar aceleração imediata, dirigir suavemente nos primeiros minutos e manter as revisões em dia, verificando corrosão e mangueiras.
Demanda de 1 bilhão de litros para as usinas
Para o setor sucroenergético, o E32 abre um mercado adicional de aproximadamente 1 bilhão de litros de etanol anidro por ano em relação ao E30, segundo a União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (Unica). Considerando a evolução desde o E27, o incremento acumulado chega a cerca de 2,4 bilhões de litros em doze meses.
A entidade afirma que a capacidade instalada é suficiente para atender à nova demanda, somando a produção de etanol de cana e de milho — só as 16 novas plantas de etanol de milho previstas para entrar em operação nos próximos 12 meses dariam conta do crescimento esperado. "A ampliação da mistura é um caminho que o Brasil já conhece e sabe operar. O etanol permite avançar com segurança energética a partir de uma solução disponível, produzida no país e em larga escala, com ganhos relevantes também do ponto de vista ambiental", disse o presidente da Unica, Evandro Gussi.














