Um estudo da Universidade de Duisburg-Essen, na Alemanha, publicado na revista científica PLOS One, associou o uso problemático da internet a pior humor, mais estresse e maior descuido com outras áreas da vida. A pesquisa acompanhou 900 adultos alemães durante 14 dias.
Todas as noites, os voluntários preenchiam um questionário registrando humor, nível de estresse, impulso de se conectar, tempo total on-line e as consequências daquele uso — o prazer obtido e as obrigações que ficaram para depois. Antes disso, uma entrevista diagnóstica classificou o comportamento de cada participante como patológico, de risco ou não problemático. Os aplicativos avaliados incluíam videogames, sites pornográficos, redes sociais e plataformas de compras on-line.
O resultado foi consistente: quanto maior a gravidade do uso problemático, pior o humor relatado, maior o estresse, mais horas conectadas e maior a negligência com outras responsabilidades.
O gatilho é o impulso, não o mal-estar
O achado que os autores destacam é sobre o mecanismo. Segundo Andreas Oelker, doutorando da universidade alemã e autor principal do trabalho, é o impulso momentâneo de se conectar que determina se a pessoa entra na atividade on-line — e não o estresse em si. Na prática, isso muda o alvo do tratamento: intervenções tendem a ser mais eficazes se ensinarem a reconhecer e administrar esse impulso, em vez de apenas tentar reduzir o mal-estar emocional de base.
Uso problemático de internet, na definição adotada pelos pesquisadores, é o uso excessivo de aplicativos a ponto de causar sofrimento ou prejuízo. Silke Müller, pesquisadora de pós-doutorado da mesma universidade, resume o quadro como um problema que não é classificado como transtorno, mas que possivelmente deveria ser. A psicóloga clínica Parin Kamdar, de Princeton, em Nova Jersey, compara o comportamento a transtornos alimentares, dependência e transtorno obsessivo-compulsivo. O estudo também registra que interações on-line são menos eficazes para cultivar amizades do que os encontros presenciais.
No Brasil, o padrão de uso pesou mais que o relógio
Pesquisa da Universidade Tiradentes, em Aracaju (SE), publicada em 2017 na Revista Brasileira de Educação Médica, chegou a uma conclusão convergente ao avaliar 169 estudantes de medicina com os inventários de ansiedade e de depressão de Beck. Entre eles, 98,8% usavam internet e redes sociais diariamente e 47,3% acessavam principalmente aplicativos de mensagens instantâneas.
O trabalho não encontrou associação estatística entre o tempo on-line e indícios de ansiedade ou depressão. O que apareceu foram os sinais de uso desadaptativo: 67,5% relataram interferência negativa nos estudos, 21,2% citaram interferência na vida familiar e a perda de sono por uso excessivo se associou tanto a ansiedade quanto a depressão. Os dois estudos apontam para o mesmo lugar — o risco está menos em quantas horas a tela fica ligada e mais em como e por que ela é ligada.














