O governo do Paraguai entregou nesta sexta-feira (31) uma nota formal ao embaixador do Brasil em Assunção, José Antonio Marcondes de Carvalho, para rejeitar declarações do presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobre a Guerra da Tríplice Aliança e cobrar a devolução de troféus levados no conflito.
O documento foi entregue no Palácio do Governo, em Assunção, pelo vice-presidente paraguaio Pedro Alliana e pelo chanceler Rubén Ramírez Lezcano, e é endereçado ao ministro brasileiro das Relações Exteriores, Mauro Vieira. Na nota, o Paraguai manifesta "formalmente seu desagrado" e rejeita as falas "em todos os seus termos", por apresentarem "de maneira distorcida fatos históricos".
O que o Paraguai pede
O texto apresenta três pedidos: a devolução do canhão Presidente López, do canhão Cristiano e dos demais troféus de guerra; a entrega de cópias de documentos históricos sobre a Guerra da Tríplice Aliança que estão sob custódia de arquivos brasileiros; e o reconhecimento de pronunciamentos aprovados pelo Congresso paraguaio. A devolução é apresentada como "gesto de reparação".
O canhão El Cristiano é a peça mais simbólica da lista: foi fabricado com metal de sinos de igrejas de Assunção e é exibido no Pátio dos Canhões do Museu Histórico Nacional, no Rio de Janeiro, onde foi registrado em 2018. "Defendemos a verdade histórica com firmeza e reafirmamos nossa vontade de manter um diálogo respeitoso", afirmou Alliana.
A fala que motivou a reação
A reação foi provocada por uma declaração de Lula em 24 de julho, durante visita a uma fábrica em Jacareí, no interior de São Paulo, em que defendia o reaparelhamento militar. "A gente não pode se esquecer que um belo dia o Paraguai resolveu invadir o Brasil, invadiu Corumbá, ao mesmo tempo invadiu o Uruguai, invadiu a Argentina e aquela guerra, que parecia que era nada, durou cinco anos", disse o presidente.
Segundo o relato do vice-presidente paraguaio, o embaixador brasileiro respondeu na reunião que as declarações foram tiradas de contexto e que não houve intenção de ofender o país. Não havia, até a publicação das reportagens consultadas, manifestação oficial do Itamaraty ou do presidente sobre o documento.
Fontes do governo brasileiro ouvidas pelo portal Metrópoles afirmaram que a devolução das peças "não está em discussão", por avaliarem que elas integram o patrimônio histórico do Brasil. A reivindicação por troféus da guerra é antiga no Paraguai.














