O Itamaraty decidiu manter no Brasil o embaixador Júlio Bitelli, chefe da representação brasileira em Buenos Aires, depois dos ataques do presidente argentino Javier Milei ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva e ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal. Não há data definida para a volta do diplomata ao posto: segundo o ministério, o retorno vai depender dos desdobramentos dos próximos dias.
A crise começou em convenção do Partido Liberal (PL), na qual Milei ofendeu Lula chamando-o de "ex-presidiário" e afirmando que ele leva o Brasil ao "caminho da dívida", além de classificar Moraes como "lixo careca". A reação brasileira foi convocar o embaixador argentino em Brasília e retirar temporariamente Bitelli da Argentina — ele foi chamado de volta ao país no fim de semana anterior a 29 de julho.
Duas reuniões no Itamaraty
Desde então, o embaixador participou de dois encontros em Brasília. O primeiro foi na segunda-feira (27), na sede do Itamaraty, com o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, e com a participação de Lula. Na ocasião, segundo relatos, Bitelli descreveu a repercussão das declarações de Milei na Argentina e disse ter recebido manifestações de solidariedade ao Brasil de diferentes setores da sociedade argentina.
O segundo encontro ocorreu na quarta-feira (29) e durou cerca de três horas, com Mauro Vieira e a embaixadora Gisela Padovan, secretária de América Latina e Caribe, dedicado à avaliação da crise entre Brasília e Buenos Aires. Apesar da ausência temporária, Bitelli permanece formalmente à frente da embaixada brasileira na capital argentina.
O cálculo do governo brasileiro é de não escalar o conflito. O Itamaraty não pediu desculpas formais a Milei e não acredita que a Casa Rosada as ofereça; a avaliação é de que a resposta precisa ser medida para não constranger outros setores da sociedade argentina. Do lado de lá, o chanceler Pablo Quirno afirmou que as relações entre os dois países não serão rompidas de forma alguma.
Duas crises na mesma semana
O episódio com a Argentina se soma ao atrito com o Paraguai, aberto por uma fala do próprio Lula. Em 24 de julho, ao defender investimentos militares, o presidente afirmou que o Brasil gosta da paz, mas não pode esquecer que um dia o Paraguai resolveu invadir o país — referência à Guerra do Paraguai. Em Assunção, a declaração foi lida como tentativa de reescrever o ponto mais traumático da história paraguaia: o governo convocou o embaixador brasileiro José Antônio Marcondes de Carvalho, o Congresso local aprovou declaração de repúdio por unanimidade e, na sexta-feira (31), o país entregou nota oficial ao Brasil.
Argentina e Paraguai integram o chamado Escudo das Américas, coalizão alinhada às políticas do presidente norte-americano Donald Trump — o mesmo governo com o qual o Brasil negocia a retirada das tarifas impostas às exportações brasileiras. Milei declarou apoio à candidatura de Flávio Bolsonaro. Desde 2023, segundo levantamento da imprensa, Lula se envolveu em outros episódios nos quais declarações públicas abriram crises ou tensões com governos estrangeiros, apesar da tradição diplomática brasileira de linguagem cautelosa conduzida pelo Itamaraty.














