A Itália voltou a checar a identidade de viajantes que chegam da Espanha por via aérea ou marítima. Anunciada na sexta-feira (31) pelo governo de Giorgia Meloni, a medida entrou em vigor neste sábado (1º) e vale por um mês. Os controles são aleatórios, feitos em portos e aeroportos, e atingem apenas cidadãos de países que não integram a União Europeia — critério em que os brasileiros se enquadram.

Segundo fontes do governo italiano, o restabelecimento dos controles nas fronteiras aéreas e marítimas com a Espanha "não suporá nenhuma mudança para viajantes espanhóis e europeus". As verificações recaem exclusivamente sobre "nacionais de terceiros países" procedentes do território espanhol. Roma afirmou ainda que a operação será conduzida "com especial atenção a limitar qualquer impacto nos fluxos turísticos". Itália e Espanha não têm fronteira terrestre — daí a checagem se concentrar em portos e aeroportos. O governo italiano também reforçou as verificações na fronteira terrestre com a França.

A Itália invocou o Código de Fronteiras Schengen, que permite a um Estado-membro reintroduzir controles internos temporários diante de ameaça grave à ordem pública ou à segurança interna. O ministro Antonio Tajani classificou a decisão como "uma medida prevista pelos tratados". Meloni justificou a restrição pela necessidade de "salvaguardar a segurança nacional e prevenir possíveis repercussões para nossa nação".

O que aconteceu em Ceuta

O estopim foi a entrada em massa de migrantes em Ceuta, cidade espanhola que faz fronteira com o Marrocos. Os balanços divulgados até a sexta-feira (31) divergiam: um deles apontava mais de 50 mil pessoas cruzando para o enclave e 57 mortes, com a maioria dos migrantes retornando voluntariamente ao Marrocos; outro registrava 67 corpos recuperados, ritmo de chegada de 150 pessoas por minuto e mais de 25 mil migrantes já deportados para o país vizinho. Os números seguiam sendo atualizados.

Meloni afirmou que as imagens de Ceuta são "impactantes" e que "a imigração ilegal descontrolada supõe uma ameaça real para a segurança das fronteiras da Europa".

Espanha e Bruxelas reagem

O governo espanhol rejeitou a decisão. Pedro Sánchez convocou uma reunião de urgência diante da "séria preocupação" com as reações e rebateu as críticas italianas lembrando que a Itália recebe mais que o dobro das chegadas de migrantes irregulares registradas pela Espanha. Dados da agência europeia Frontex para o período de 2021 a 2026 apontam 478.600 entradas irregulares na Itália e 234.760 na Espanha.

O ministro Albares respondeu: "Basta de confusão interessada. Não é possível se deslocar de Ceuta sem se identificar num controle policial". Bruxelas advertiu que controles internos precisam ser "temporais e excepcionais" e que, em circunstâncias excepcionais, dependem de aprovação do Conselho — procedimento que a Itália não seguiu.

Para o viajante brasileiro, o efeito prático é a possibilidade de ser parado para identificação ao desembarcar na Itália vindo da Espanha ao longo do mês. O governo italiano afirma que as verificações são aleatórias, e não uma checagem de todos os passageiros, e que serão conduzidas com atenção a limitar o impacto sobre os fluxos turísticos.