A indústria brasileira de papel pediu ao governo federal que dobre o imposto de importação do papel sulfite depois de registrar uma entrada inédita do produto asiático no mercado nacional. Segundo a Ibá (Indústria Brasileira de Árvores), que representa cerca de 50 grandes produtores de papel e celulose do país, as compras externas do chamado papel "cutsize" — categoria das folhas tradicionais A3 e A4 — cresceram 160% em volume entre janeiro e maio de 2026 na comparação com o mesmo período de 2025, saltando de 3,3 milhões para 8,5 milhões de quilos.
Em valor, as importações passaram de US$ 2,9 milhões para US$ 6,3 milhões. O avanço veio acompanhado de queda de preço: a média do produto importado recuou 14%, de US$ 0,90 para US$ 0,77 por quilo. Na ponta da venda, o papel estrangeiro chega entre R$ 7 e R$ 35 abaixo do preço do produto nacional, segundo o setor.
Excedente barrado nos EUA sobra para o Brasil
A explicação apontada pela indústria está nas barreiras comerciais que os Estados Unidos impuseram à China e a outros países asiáticos. Os norte-americanos mantêm direitos antidumping e medidas compensatórias sobre papéis produzidos na China e na Indonésia, além de uma sobretaxa adicional de 25% sobre o papel chinês. Sem espaço no mercado americano, os dois países passaram a despejar no Brasil o excedente que pretendiam vender aos EUA.
"Nessa desordem do sistema internacional, a China passa a buscar outros mercados porque perdeu o mercado americano", afirmou o diretor internacional da Ibá, José Carlos da Fonseca Júnior. No pleito formal enviado ao governo, a entidade escreveu que "o cenário internacional de papéis cutsize tem observado movimento convergente de fechamento de mercados estrangeiros, o que tem redirecionado a oferta asiática excedente para destinos 'mais abertos', notadamente o Brasil".
Pedido está na Secretaria de Comércio Exterior
O pleito foi apresentado na semana passada à Secretaria de Comércio Exterior, ligada ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic). A Ibá quer que a alíquota do papel cutsize suba de 16% para 30%, teto permitido pela Tarifa Externa Comum do Mercosul, e sustenta que "os danos já sentidos pelas produtoras domésticas desse produto, aliados ao risco de desinvestimentos no país dessas produtoras, justificam a concessão urgente de medida de elevação do imposto de importação". O Mdic foi questionado sobre o assunto e não se manifestou.
Não é a primeira investida do setor. Em junho, a Ibá fez pedido semelhante para o papel-cartão, usado em embalagens de medicamentos, alimentos e produtos de higiene, com proposta de elevar a alíquota de 16% para 35%. Em 2024, a entidade já havia recorrido à Camex pedindo aumento de 12,5% para 25% nesse mesmo papel, e o governo autorizou elevação até 16%.
O mercado brasileiro é autossuficiente: a capacidade instalada no país equivale a 143% do consumo doméstico. Ainda assim, as exportações brasileiras do produto caíram de 150 milhões para 129 milhões de quilos. Dados oficiais divulgados pela Ibá em junho mostram que a produção nacional de papel somou 2,8 milhões de toneladas no primeiro trimestre de 2026, alta de 0,2%, com vendas domésticas 1,8% maiores e exportações de papel em queda de 0,6%, para US$ 566,6 milhões.














