O presidente Luiz Inácio Lula da Silva determinou que o governo brasileiro "baixe a poeira" no conflito com o presidente da Argentina, Javier Milei. A informação foi divulgada nesta quarta-feira (29), quatro dias depois de o argentino ofender Lula e o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, em evento partidário realizado em São Paulo.

A motivação da ordem é econômica: o objetivo é evitar que a escalada política gere consequências comerciais capazes de prejudicar o setor produtivo nacional. O comércio bilateral entre Brasil e Argentina soma US$ 31 bilhões, e já houve queda recente nas exportações brasileiras em meio às tensões políticas. O Brasil é o principal parceiro comercial argentino.

O que Milei disse na convenção do PL

A crise começou no sábado (25), quando Milei participou, em São Paulo, da convenção que oficializou a candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à Presidência da República. No discurso, o argentino chamou Lula de "presidiário" e "ladrão", sem citá-lo nominalmente, e se referiu a Moraes como "lixo careca", porque o ministro havia negado a ele autorização para visitar o ex-presidente Jair Bolsonaro.

No domingo (26), o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, convocou o embaixador da Argentina no Brasil, Daniel Raimondi, para transmitir a rejeição do governo federal às declarações. Em nota, o Itamaraty afirmou não haver precedentes de um presidente estrangeiro que, em território nacional, desfira agressões e ofensas ao chefe de Estado, às instituições democráticas, inclusive ao Judiciário, e ao povo brasileiro. O ministério lembrou ainda que os dois países têm 203 anos de amizade e cooperação.

Vieira classificou as falas de Milei como "grosseiras, rudes e inaceitáveis". O presidente do STF, Edson Fachin, divulgou nota em que tratou a fala do argentino como "referência desrespeitosa" e lamentou "manifestações incompatíveis com a civilidade" entre Estados.

Na sequência, o Brasil chamou seu embaixador em Buenos Aires, Julio Bitelli, para consultas — gesto que, na linguagem diplomática, indica forte protesto contra a ação de outro Estado. Bitelli voltou a Brasília sem passagem de retorno marcada para a capital argentina, o que elevou o grau da resposta brasileira, e teve conversa breve e reservada com Lula na terça-feira (28). A última vez que embaixadores foram chamados para consultas entre os dois países foi há mais de duas décadas.

Governo decide mirar o adversário interno

A avaliação do Planalto é que responder aos ataques na mesma moeda endossaria a estratégia política de Milei e diminuiria a diplomacia brasileira e a própria figura de Lula. Assessores do presidente entendem que o argentino busca o confronto ideológico para consolidar sua base doméstica diante dos resultados econômicos ruins na Argentina.

Com a mudança de postura, a estratégia do governo passou a mirar o adversário interno — o senador Flávio Bolsonaro, candidato do PL à Presidência — em vez de manter a tensão com o país vizinho. Questionado por jornalistas sobre o episódio, Lula respondeu: "Quem é esse cara?"