Mais da metade das brasileiras já sofreu algum tipo de violência prevista na Lei Maria da Penha por parte de parceiros ou ex-parceiros, aponta pesquisa divulgada nesta quarta-feira (29) pelos institutos Patrícia Galvão e Locomotiva. O percentual chega a 54% entre as mulheres que já tiveram relacionamento com homens, o que corresponde a uma estimativa de 47,7 milhões de brasileiras.

Do outro lado da conta, apenas 11% dos homens reconhecem ter cometido algum tipo de agressão contra parceiras ou ex-parceiras — cerca de 9,5 milhões, segundo o levantamento. A diferença entre o relato das vítimas e a admissão dos agressores é de 43 pontos percentuais.

O estudo se chama "20 anos da Lei Maria da Penha: percepção da sociedade brasileira" e foi divulgado a poucos dias do aniversário da norma, sancionada em 7 de agosto de 2006 e em vigor desde 22 de setembro daquele ano. Foram ouvidas 1.500 pessoas de 16 anos ou mais em todas as regiões do país — 1.000 mulheres e 500 homens —, entre 22 e 30 de abril de 2026, por entrevistas digitais de autopreenchimento. A margem de erro é de 2,8 pontos percentuais, e a pesquisa foi patrocinada pela Uber, conforme informaram os próprios institutos.

Violência psicológica é a mais relatada

Entre os tipos de violência, a psicológica é a mais relatada, com 42%, seguida pela física, com 25%, pela sexual, com 10%, e pela patrimonial, com 9%. A pesquisa aponta ainda que 88% das vítimas indicam parceiros ou ex-parceiros como agressores.

Um dado chama atenção sobre como a violência é percebida: quando a pergunta é genérica, 34% das mulheres dizem ter sofrido violência. O percentual salta para 54% quando as condutas previstas em lei são descritas uma a uma. Para a diretora de pesquisa do Instituto Locomotiva, Maíra Saruê, comportamentos violentos de controle foram naturalizados, e a violência psicológica é a enfrentada com mais frequência.

"A violência contra mulheres segue em patamares alarmantes", afirmou a diretora executiva do Instituto Patrícia Galvão, Vera Vieira.

Medo de represália trava a denúncia

A pesquisa também mediu o que impede a denúncia. O medo de represálias ou a falta de proteção é apontado por 68% das entrevistadas, seguido pela sensação de impunidade dos agressores, com 56%, e pela lentidão da Justiça, com 39%. Outros dois números do levantamento completam o quadro: 80% avaliam que a lei não funciona adequadamente na prática e 70% das mulheres chamariam a polícia diante de uma agressão, contra 56% dos homens.

O conhecimento sobre a própria lei também é desigual: 88% reconhecem que a norma protege contra a violência física, 46% sabem que há proteção patrimonial e apenas 39% conhecem as cinco formas de violência previstas. Para 82%, a legislação isolada não é suficiente para enfrentar o problema, segundo os institutos.