A nova sobretaxa de 12,5% imposta pelos Estados Unidos a produtos brasileiros passou a valer na madrugada de 24 de julho, mas chegou acompanhada de uma lista de exceções que muda o tamanho do estrago para Minas Gerais. Ao todo, 471 produtos, distribuídos em cerca de 20 categorias, ficaram de fora da cobrança — e entre eles está o café, principal produto do agronegócio mineiro vendido ao mercado americano.
A tarifa foi anunciada com base em investigação da Seção 301 da Lei de Comércio norte-americana de 1974, sob a alegação de que o Brasil não teria mecanismos suficientes para impedir a entrada, em suas cadeias produtivas, de itens fabricados com trabalho forçado. A medida não atinge apenas o Brasil: alcança cerca de 60 economias. Nos itens que não entraram na lista de exceções, os 12,5% se somam à sobretaxa de 25% já em vigor, elevando a tributação total a 37,5%.
Além do café, escaparam da nova cobrança petróleo, gás natural, fertilizantes, defensivos agrícolas, madeira, couros, suco de laranja, derivados de açaí, ferro-gusa, medicamentos e insumos farmacêuticos, além de equipamentos ligados à indústria de semicondutores. O critério apresentado pelo governo americano foi o de produtos considerados essenciais para a economia e a indústria dos Estados Unidos — em boa parte, itens sem substituto imediato no mercado interno de lá.
O peso do café para Minas
Minas Gerais é o maior produtor de café do país, e o grão é o principal item que o agro mineiro embarca para os Estados Unidos. Entre janeiro e junho de 2026, as vendas mineiras de café ao mercado americano somaram US$ 645,8 milhões, com 95,5 mil toneladas exportadas. É esse fluxo que a lista de isenções preserva.
A blindagem do setor cafeeiro vinha sendo construída desde a rodada anterior de tarifas. Em 16 de julho, os Estados Unidos já haviam excluído todos os tipos de café brasileiro da sobretaxa de 25% — inclusive o café solúvel, que até então enfrentava tributação de 50% e responde por mais de US$ 220 milhões por ano em vendas do Brasil ao mercado americano. O Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé) calcula que a negociação alcança 330 mil famílias de cafeicultores em 39 regiões produtoras do país.
Marcos Matos, diretor-geral do Cecafé, tem repetido que os Estados Unidos são parceiros insubstituíveis para o setor, na condição de maior importador e maior consumidor de café do mundo. Já a Associação Brasileira da Indústria de Café Solúvel (Abics) tratou a inclusão do solúvel na lista como alívio para uma indústria que vinha registrando queda no volume embarcado.
Governo brasileiro contesta a medida
Mesmo com as exceções, o governo brasileiro reagiu à nova tarifa. Em nota divulgada em 23 de julho, classificou a cobrança de arbitrária e injustificada e rejeitou integralmente a alegação de trabalho forçado usada como fundamento pelos Estados Unidos. O Executivo anunciou que vai acionar o mecanismo de solução de controvérsias da Organização Mundial do Comércio (OMC) e avaliar o uso da Lei da Reciprocidade, além de manter o apoio a empresas afetadas por meio do Plano Brasil Soberano.
Para os produtores mineiros, o efeito prático imediato é a manutenção do acesso ao maior comprador de café do planeta em um momento de safra em escoamento. O risco que permanece é o de setores fora da lista de isenções — que seguem expostos à tributação combinada de 37,5% — e a possibilidade de novas rodadas de revisão da lista pelos Estados Unidos.




