A filósofa e ativista norte-americana Angela Davis foi o principal acontecimento do fim de semana da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip). Em sua estreia no evento — e décima passagem pelo Brasil —, ela falou na tarde do sábado (25) para as 700 pessoas que ocuparam a tenda montada no Sesc Caborê, enquanto centenas de outras acompanhavam a conversa por telões instalados na área externa da Casa Sesc.

A mesa, mediada pela jornalista Flávia Oliveira, caiu no Dia da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, celebrado em 25 de julho. Ao lado de Davis estiveram as escritoras Conceição Evaristo e Ana Maria Gonçalves, a jornalista Aline Midlej, a ex-deputada Erica Malunguinho e a cineasta Marina Person. O debate integrou a programação do Sesc na Flip, que neste ano se organizou em torno do conceito de "Veredas".

Literatura, bilionários e um recado eleitoral

O trecho mais comentado da fala foi a referência à sucessão presidencial brasileira. Sem citar o nome, Davis afirmou que o público não pode permitir que "o filho de… como é mesmo o nome dele?" seja o próximo presidente — uma alusão à candidatura de Flávio Bolsonaro, oficializada dias antes em convenção do PL. A plateia respondeu com aplausos prolongados.

Fora do episódio eleitoral, a filósofa concentrou a fala no papel político da leitura. Para ela, a literatura cumpre a função de ampliar a consciência das pessoas e inspirar o engajamento em lutas capazes de produzir mais democracia e liberdade. Davis também criticou a concentração de riqueza no mundo, ao dizer que se vive um momento em que bilionários exploram a terra e acumulam patrimônio de forma irresponsável.

Visita ao Quilombo do Campinho

Em vez de circular pelo centro histórico de Paraty, Davis escolheu conhecer o Quilombo do Campinho da Independência, comunidade remanescente na região da Costa Verde fluminense. A partir da visita, ela endereçou uma crítica direta à pressão imobiliária sobre o território, apontando a atuação de incorporadoras que empurram famílias para fora de terras ancestrais — um conflito antigo no litoral sul do Rio de Janeiro, onde a valorização turística convive com comunidades quilombolas e caiçaras tituladas.

A 24ª edição da Flip ocorre até este domingo (26) no centro histórico de Paraty e homenageia a poeta Orides Fontela (1940-1998). A programação principal reúne 21 mesas e nomes como a britânica Zadie Smith, a catalã Eva Baltasar, a ministra do Supremo Tribunal Federal Cármen Lúcia e o médico Drauzio Varella. A maior parte das sessões esgotou os ingressos, restando disponibilidade apenas para mesas do último dia.