Duas candidatas a deputada federal e uma a deputada estadual do PT registraram boletim de ocorrência por ameaças de morte e estupro em um intervalo de uma semana em Minas Gerais. As denúncias foram encaminhadas à Polícia Federal e ao Ministério Público Eleitoral do estado.

Bella Gonçalves, Ana Elisa Silva e Andréia de Jesus registraram as denúncias entre 5 e 11 de setembro. Há semelhanças entre as ameaças, recebidas por e-mail: o autor se apresenta como integrante de um grupo supremacista branco e expõe dados pessoais das candidatas.

As candidatas acreditam que os ataques foram combinados em "chans", fóruns de discussão anônimos, alguns deles na deep web. "O fato de haver nossos dados pessoais circulando entre grupos de ódio na internet é muito grave", diz Bella Gonçalves, hoje deputada estadual na ALMG.

Dias depois de receber os e-mails, na madrugada de 8 de setembro, o comitê de campanha de Bella em Belo Horizonte foi alvo de vandalismo: a placa da candidatura foi arrancada, segundo a equipe dela, que registrou boletim de ocorrência no dia seguinte.

Andréia de Jesus, que disputa reeleição na ALMG, recebeu ameaças entre 1º e 11 de setembro. Para ela, são "tentativas de intimidar e silenciar nossos corpos, nossas vozes, nossa presença".

"Isso tem um impacto emocional e econômico, já que aumentamos nossos gastos com segurança privada", afirma. Ela diz ter recebido mais de 4.000 ameaças e ataques racistas desde que foi eleita, em 2018.

O caso das três petistas não é isolado. Em setembro, a deputada Duda Salabert (PSOL-MG) sofreu uma tentativa de homicídio ao fiscalizar mineração ilegal na divisa de Belo Horizonte com Nova Lima.

A onda de ataques ocorre em uma eleição em que mulheres são 34,9% das candidaturas, a maior fatia da série do TSE, iniciada em 1998. Mas concorrer não é o mesmo que chegar: presença na disputa não garante segurança para competir até o fim.

Na eleição de 2022, apenas 17,7% das vagas da Câmara Federal ficaram com mulheres, mesmo com a reserva de candidaturas femininas em vigor desde 1996.

Desde 2021, ameaçar, constranger ou perseguir candidatas com o objetivo de afastá-las da disputa é crime eleitoral, pela Lei 14.192/2021, com pena de 1 a 4 anos de prisão e multa.

Em Minas Gerais, a Lei estadual 24.466/2023 criou política de enfrentamento ao problema, após ondas de ameaça semelhantes contra parlamentares mineiras em 2024, que levaram à Operação Di@na, parceria entre órgãos estaduais que descobriu fóruns de incitação à violência e resultou em prisão em 2025.

Outras frentes institucionais mineiras miram a eleição de 2026: a ALMG e o TRE-MG lançaram nesta semana uma campanha contra a desinformação eleitoral no estado.

O MPT também tem agido contra outras formas de pressão sobre candidatas neste mês: nesta quinta (17), o órgão processou a Havan e a empresária Luciana Hang por assédio eleitoral, com pedido de R$ 30 milhões.

O ponto em aberto

A Polícia Federal e o Ministério Público Eleitoral de Minas Gerais ainda apuram se as ameaças às três candidatas petistas partiram do mesmo grupo.

Enquanto a investigação corre, a legislação já prevista para coibir esse tipo de ataque testa sua eficácia numa eleição em que mais mulheres disputam vagas do que em qualquer outra da série histórica.