Cientistas da Universidade Stanford criaram camundongos com cérebros repletos de milhões de neurônios humanos, avanço que permite estudar distúrbios cerebrais fora do corpo. A pesquisa, publicada na revista Nature, é liderada pelo neurocientista Sergiu Pașca e usa tecido humano cultivado em laboratório.
O tecido humano vem de organoides cerebrais, réplicas minúsculas cultivadas em laboratório desde a década de 2010.
Nos camundongos, geneticamente modificados com 98% do córtex removido, o tecido cresceu cerca de 5 vezes em 2 a 3 meses, ocupando mais de 90% do espaço vazio no cérebro.
Pașca e a equipe consultam regularmente especialistas em ética e monitoram o comportamento dos animais. Até agora, os camundongos se comportam, em sua maioria, como se tivessem cérebros comuns de camundongo.
"Não seria possível perceber a diferença", disse Pașca. Outros especialistas que não participaram do estudo concordaram com a avaliação.
Nem todos veem a técnica como neutra. "Uma grande proporção do cérebro pode ser composta por células humanas, mas nada em seu comportamento é humano", disse Madeline Lancaster, neurobióloga do Conselho de Pesquisa Médica do Reino Unido, que não participou do estudo.
Por que estudar o cérebro humano em camundongos?
Cientistas estudam o cérebro humano em camundongos porque replicar suas doenças em laboratório é uma tarefa complexa. O órgão humano tem cerca de 80 bilhões de neurônios, unidos por trilhões de conexões, e é mil vezes maior que o de um camundongo comum.
Cientistas suspeitam que falhas nesses circuitos causam condições como esquizofrenia e autismo. "Os transtornos neuropsiquiátricos são, em grande parte, distúrbios dos circuitos", disse Pașca.
Parte do tecido usado no estudo veio de células de jovens pacientes com síndrome de Timothy, doença genética rara ligada a autismo grave e epilepsia. O transplante também gerou neurônios parecidos com os de von Economo, ligados à cognição social.
A técnica já ajudou os pesquisadores a identificar alterações moleculares ligadas à síndrome de Timothy e um possível candidato a tratamento.
O que acontece agora
O grupo de Pașca segue monitorando os camundongos e ampliando o uso da técnica para outras condições, como esquizofrenia, paralisia cerebral e demências raras, sempre em consulta com especialistas em ética.


























