O dólar fechou nesta quarta-feira (23) a R$ 5,1689, alta de 1,27% e no maior valor desde agosto, mesmo com uma nova pesquisa eleitoral mostrando o presidente Lula (PT) à frente do senador Flávio Bolsonaro (PL) no 2º turno de outubro.

O movimento parece contraintuitivo: pesquisas favoráveis a Lula costumam ser lidas pelo mercado como risco, e foi Lula quem liderou.

Mas o resultado, segundo analistas, tem menos a ver com quem lidera e mais com o tamanho do empate.

A pesquisa AtlasIntel/Bloomberg divulgada nesta quarta mostrou Lula com 47,7% das intenções de voto no 2º turno contra 47,4% de Flávio. O levantamento ouviu 5.015 eleitores entre 17 e 22 de setembro.

A pesquisa foi contratada pela Bloomberg, tem margem de erro de 1 ponto percentual, com 95% de confiança, e é registrada no TSE sob o protocolo BR-04739/2026.

Com a diferença de 0,3 ponto dentro da margem de erro, o resultado é um empate técnico que não reduz a incerteza sobre o resultado de outubro, e é essa incerteza que o mercado precifica, não a liderança pontual de um nome.

"O que está em jogo não é o nome de quem vai ganhar, é a trajetória da dívida", disse Marcos Bassani, sócio-fundador da Boa Brasil Capital, à imprensa.

Segundo ele, investidores vão continuar exigindo juros mais altos e proteção no dólar sem compromisso claro com as contas públicas.

Fatores externos também pesaram. O PMI (índice de atividade industrial e de serviços) dos Estados Unidos subiu a 58,4 em setembro, o maior nível desde julho de 2021, o que fortaleceu o dólar globalmente.

O padrão não é novo nesta corrida eleitoral. Em 3 de setembro, o comportamento foi o oposto: uma pesquisa anterior fez a Bolsa disparar 3% e o dólar cair no mesmo dia.

Já em agosto, o dólar chegou a R$ 5,17 em meio a uma sequência de quedas na Bolsa, o mesmo patamar de hoje.

Há um paralelo mais antigo. No 1º turno de 2022, quando o resultado sinalizou um Congresso mais à direita, o dólar caiu mais de 4%, para R$ 5,17, o mesmo valor de hoje.

Já no dia seguinte à vitória de Lula no 2º turno daquele ano, a moeda chegou a R$ 5,41. A leitura dos analistas é consistente nos dois ciclos: o mercado reage menos à identidade do candidato e mais ao risco fiscal percebido.

O ponto em aberto

A pesquisa Atlas/Bloomberg mostra a disputa dentro da margem de erro, e outros institutos também têm registrado cenários apertados no 2º turno. Com a eleição marcada para outubro, a pergunta que fica para o mercado não é qual nome vai vencer.

É se o próximo governo, seja qual for, vai apresentar um plano fiscal capaz de reduzir o prêmio de risco embutido no dólar.