O Ministério da Justiça e Segurança Pública pediu à Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) que investigue 13 aplicativos de inteligência artificial que simulam relações afetivas, entre eles Replika, Character.AI e Nomi. O pedido, de 23 de setembro, aponta risco a crianças e adolescentes.

O pedido se baseia em diagnóstico da Secretaria Nacional de Direitos Digitais (Sedigi) e aponta apego excessivo, exposição a conteúdo sexualizado e falhas na verificação de idade, hoje baseada em autodeclaração nos aplicativos.

A lista de apps citados inclui ainda Candy.ai, Kindroid, Chai, Paradot, Talkie, Crushon.ai, Eva AI, Swipey, Anima e SpicyChat.AI. O pedido não implica ilegalidade confirmada. É uma investigação preliminar, com direito de defesa das empresas.

O Brasil ainda não tem regra própria. Desde 15 de julho, a China já proíbe esse tipo de chatbot "companheiro" para menores de 18 anos, com regras que obrigam as plataformas a se identificar como máquinas.

Não é a primeira vez que a ANPD mira aplicativos de IA. Em agosto, a agência notificou 22 plataformas para proteger crianças e mulheres.

No mesmo mês, a ANPD multou o TikTok em R$ 153,7 milhões por falhas na proteção de menores.

Publicidade

Quantos brasileiros recorrem à IA por solidão

Uma pesquisa da Norton (marca da Gen), feita com a Dynata, mostra que 39% dos pais brasileiros relatam que os filhos já buscaram companhia ou apoio emocional pela IA.

O levantamento Connected Kids 2025 ouviu 1.001 pais brasileiros entre 30 de abril e 8 de maio.

Entre adultos, um estudo da Talk Inc. com mil pessoas em diferentes regiões do país encontrou que 1 em cada 10 brasileiros usa chats de IA para suprir carências emocionais, e 60% interage com a ferramenta como se falasse com uma pessoa real.

Por que a psicoterapia não alcança todo mundo

Apenas 5% da população brasileira faz psicoterapia e 16% usa medicação para problemas de saúde mental, segundo o levantamento Panorama da Saúde Mental, do Instituto Cactus. É nesse cenário que cresce a busca por chatbots de IA como companhia.

"Quanto menos nos expomos às experiências reais, menos aprofundamos nosso repertório social e psicológico", avalia a psicóloga Anna Paula Zanoni Steinke.

"Se uma ferramenta tem por objetivo aumentar tempo de uso, retenção e engajamento, seus algoritmos podem ser incentivados a prolongar conversas", observa Eduardo Felipe Matias, doutor em Direito pela USP e autor do livro "A Humanidade e o Poder Digital".

O Conselho Federal de Psicologia reconhece, em nota, o papel de apoio da inteligência artificial, mas afirma que ela "não substitui o juízo técnico ou ético" do profissional.

O ponto em aberto

A investigação da ANPD sobre os 13 aplicativos segue em fase preliminar, sem decisão sobre eventual sanção. A pergunta que fica é se alguma regra chegará ao Brasil antes que o relato de pais sobre o uso dos filhos, hoje em 39%, continue crescendo.