A Real Academia Sueca de Ciências anunciou nesta semana os vencedores do Nobel 2026 nas categorias científicas: pesquisadores da França, do Japão, da Bélgica, dos Estados Unidos e da Alemanha. O Brasil segue sem nenhum vencedor, apesar de 215 indicações desde 1901.

Segundo especialistas ouvidos pelo Metrópoles, a ausência de um brasileiro no pódio tem relação direta com a imprevisibilidade dos investimentos e da infraestrutura científica do país.

"No Brasil, mais que qualquer coisa, falta continuidade. Há oscilações muito grandes que fazem com que a pesquisa possa começar, tenha que acabar abruptamente e depois, consiga ser retomada", afirma Hugo Aguilaniu, diretor-presidente do Instituto Serrapilheira.

Para Lisandro Granville, diretor-geral da Rede Nacional de Ensino e Pesquisa (RNP), vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), vencer um Nobel é consequência de um sistema científico forte.

"O Brasil já tem talentos e instituições de excelência. Com continuidade e visão de longo prazo, fortalecemos a ciência, a competitividade e a autonomia tecnológica do país", diz Granville.

Outro obstáculo apontado pelos cientistas é a burocracia para importar equipamentos e reagentes usados em pesquisas experimentais. Cotas de importação e a oscilação cambial encarecem e atrasam os projetos.

"Em determinado mês, a cotação do dólar está um pouco mais favorável; daqui a pouco, ela sobe, e isso já dificulta a importação. E há também o tempo que esses processos demoram", relata Sergio Ferreira, diretor científico do IDOR Ciência Pioneira.

Quantas vezes o Brasil já foi indicado ao Nobel?

O Brasil acumula 215 indicações ao Nobel desde 1901, distribuídas entre 27 pessoas e uma instituição, já que o mesmo nome pode aparecer mais de uma vez nos registros. Nenhuma delas resultou em vitória nas categorias científicas do prêmio.

Os números não indicam falta de talento. Em Física, Cesar Lattes participou da descoberta do méson pi em 1947, mas o Nobel de 1950 foi para o líder da equipe, o britânico Cecil Powell.

Publicidade

Em Medicina, Carlos Chagas identificou a doença que leva seu nome em 1909 e recebeu só duas indicações. Os registros públicos de indicação vão apenas até 1975, porque a Fundação Nobel mantém sigilo de 50 anos sobre os nomes cotados.

Por que o orçamento da ciência caiu em 2026?

O orçamento de ciência, tecnologia e comunicações para 2026 soma R$ 17,8 bilhões, queda de 5% em relação a 2025, segundo o relatório setorial do Congresso.

O FNDCT, principal fundo de fomento à pesquisa e à inovação, terá R$ 8,79 bilhões, redução de quase 15% frente ao que havia sido proposto para o ano anterior.

No MCTI, as dotações cresceram 14,7% em relação ao autorizado de 2025, mas as despesas de investimento caíram 17%. É a fatia que paga equipamento e infraestrutura de laboratório. Mais de 80% dos recursos do ministério estão concentrados em despesas de pessoal e custeio.

A Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e a Academia Brasileira de Ciências (ABC) manifestaram preocupação com a redução em órgãos como o CNPq, que já enfrentou bloqueio de R$ 300 milhões em verbas de bolsas neste ano.

Também há bolsistas que ficaram mais de dois meses sem receber neste ano.

O Nobel de Química 2026 premiou uma descoberta que facilita a produção de remédios.

O de Física foi para um estudo sobre um bloco de gelo na Antártida. Nenhum brasileiro concorreu às duas áreas nesta edição.

Os cientistas apontam ainda o isolamento da produção científica brasileira. A publicação em revistas internacionais cobra taxas altas, que o financiamento de muitos estudos não cobre.

A participação em congressos no exterior também esbarra na falta de recursos. É esse ciclo, de verba intermitente travando projeto de longo prazo, que os pesquisadores apontam como a barreira real para o Nobel.

O que acontece agora

O relatório do orçamento de 2026 para ciência, tecnologia e comunicações ainda tramita no Congresso.

Foram apresentadas 123 emendas parlamentares ao texto, 108 delas individuais, e as já acatadas somam R$ 222,1 milhões direcionados a pesquisa científica, inovação tecnológica e inclusão digital. O valor final só fica definido com a votação da Lei Orçamentária Anual (LOA) de 2026.