A Academia Goncourt confirmou, na lista final de oito concorrentes anunciada em 6 de outubro, a exclusão do escritor Thélyson Orélien, acusado de usar inteligência artificial no romance "C'était ça ou mourir". O caso reacende a pergunta: é possível provar a autoria de um livro?

A exclusão havia sido anunciada em 27 de setembro, quando a Academia tirou o romance da lista inicial de 16 indicados. Segundo a instituição, o livro é "com toda a probabilidade, em grande medida produto de uma inteligência artificial".

A decisão busca preservar a integridade do Prêmio Goncourt e da Academia, e envia uma mensagem clara de que a instituição não apoiará, de uma forma ou de outra, a criação de textos gerados com uso de IA.

A suspeita se apoiou em "resultados coincidentes de várias análises realizadas por investigadores e jornalistas", segundo a Academia, que não detalhou publicamente a metodologia. Ao caso somaram-se acusações de plágio de textos que Orélien publicou no Canadá há mais de dez anos.

O escritor nega as acusações. Disse que só comentaria o caso "quando a poeira baixar" e afirmou existir um esforço coordenado para "atacar o livro e calar sua voz". A editora canadense Boréal suspendeu a promoção da obra.

Como se tenta provar que um texto é de IA

As ferramentas mais usadas, como GPTZero, Copyleaks e Originality.ai, analisam a "perplexidade" do texto: o quanto a escolha de cada palavra é previsível para um modelo de linguagem. Texto com baixa perplexidade, mais previsível, pontua como mais provável de ser gerado por IA.

Outra métrica é a variação na estrutura das frases, chamada de burstiness: humanos tendem a alternar frases curtas e longas, enquanto textos de IA costumam manter um ritmo mais uniforme.

Publicidade

Soma-se a isso a estilometria, técnica mais antiga que usa estatísticas de tamanho de frase e frequência de palavras para caracterizar o estilo de um autor.

Nenhuma dessas ferramentas garante certeza: todas produzem falsos positivos e já classificaram texto escrito por humanos como obra de IA, o que torna qualquer acusação baseada só nelas um terreno instável, inclusive para uma academia centenária como a Goncourt.

O que acontece agora

A lista de quatro finalistas do Goncourt 2026 sai em 27 de outubro, e o vencedor é anunciado em 3 de novembro. O livro de Orélien, mesmo fora da disputa, viu as vendas dispararem na França após a repercussão do caso.

A primeira exclusão, em setembro, já havia sido coberta pela TV Sim Brasil, antes da confirmação da lista final de oito nomes neste mês.

O debate não é só francês: um ilustrador chegou a ser desclassificado do Prêmio Jabuti por suspeita de uso de IA e depois voltou a disputar a principal premiação literária do Brasil.