Um estudo publicado na revista científica JAMA Psychiatry mostra que os casos de anorexia e bulimia cresceram 71% no mundo entre 1990 e 2023, somando mais de 18 milhões de pessoas diagnosticadas. A pesquisa, divulgada na quarta-feira (28 de outubro), avaliou 204 países.

A nutricionista Carol Alves, de 36 anos, publicou um vídeo questionando a tendência do TikTok segundo a qual o manequim 38 ou 40, comum entre brasileiras, já não seria considerado magro. Ela tem exames de rotina normais e mantém peso e percentual de gordura saudáveis.

Parte do público que viu o vídeo a chamou de gorda, e alguns comentários chegaram a atribuir a ela obesidade de grau 1.

Carol separa os dois conceitos. Para ela, ser gorda descreve uma característica física, e obesidade é uma condição clínica que não se aplica a quem está na faixa de peso normal.

Para a nutricionista, o volume de críticas mostra um olhar tão distante da realidade que já não reconhece um corpo saudável quando o vê.

O episódio teve efeito sobre outras mulheres. Pacientes e seguidoras de Carol escreveram relatando aflição, e várias comentaram no próprio vídeo que, se diziam aquilo dela, imaginavam o que diriam delas. Algumas se xingaram nos próprios comentários do vídeo.

Por que os casos de transtorno alimentar aumentam tanto?

Os casos aumentam, segundo especialistas, pela combinação entre exposição constante a corpos extremamente magros nas redes sociais e algoritmos que amplificam esse padrão de beleza. A psicóloga Giorgia Ocinschi afirma que essa comparação constante alimenta o adoecimento.

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Uma pesquisa citada no mesmo levantamento mostrou que o algoritmo do TikTok entregou 4.343% mais vídeos tóxicos sobre transtornos alimentares a usuários que já tinham esses quadros. Muitos receberam mais de 1.000 vídeos problemáticos por mês.

No Brasil, o TikTok já foi alvo de fiscalização. A Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD) aplicou à empresa uma multa de R$ 153,7 milhões por falhas na proteção de menores.

O Instagram adotou medida parecida. A rede já impõe limites a conteúdos sobre magreza em contas de adolescentes.

O tema não é novo para o portal. Em junho, outra reportagem mostrou os impactos da magreza extrema na saúde mental dos jovens.

O que os números do estudo mostram?

O estudo publicado na revista JAMA Psychiatry analisou 204 países entre 1990 e 2023 e mediu mais de 18 milhões de pessoas com anorexia ou bulimia nervosa, a maioria mulheres e meninas de 10 a 24 anos.

A carga absoluta cresceu 74,6% para bulimia nervosa e 57,4% para anorexia nervosa no período, segundo a pesquisa. A projeção é de alta de 20,3% até 2050, quando o total deve chegar a 21,8 milhões de pessoas.

No Brasil, cerca de 1 em cada 20 pessoas tem algum tipo de transtorno alimentar, segundo reportagem que ouviu especialistas. Em audiência na Câmara dos Deputados, um pesquisador afirmou que o problema atinge cerca de 15 milhões de brasileiros.

Para Carol, a diferença entre os dois conceitos importa porque evita diagnósticos equivocados e preserva quem já convive com a doença.

A pesquisa da JAMA Psychiatry também mediu dados de mortalidade ligada aos dois transtornos.