A usina nuclear de Zaporizhzhia, a maior da Europa, ficou sem energia externa no domingo (8 de novembro) e passou a usar geradores a diesel para resfriar o combustível nuclear. A AIEA diz que o estoque garante o funcionamento por cerca de duas semanas.

É o 16º apagão externo registrado na usina neste ano e o 27º desde que a Rússia tomou o controle da instalação, nas primeiras semanas da invasão da Ucrânia, iniciada em fevereiro de 2022.

Vista aérea da usina nuclear de Zaporizhzhia, no sul da Ucrânia, com seus reatores às margens do rio Dnipro
A usina nuclear de Zaporizhzhia, a maior da Europa, está sob controle russo desde os primeiros dias da invasão de 2022 Foto: Leo211/Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

O diretor-geral da AIEA, Rafael Grossi, classificou a situação como precária em termos de segurança nuclear e cobrou a reconexão urgente da usina à rede elétrica ucraniana.

A causa da desconexão mais recente ainda não é conhecida, segundo a AIEA. A administração instalada pela Rússia atribui a queda da linha Ferosplavna a um sistema de proteção automática e afirma que os níveis de radiação seguem normais.

Os apagões não se limitam à usina. Ataques russos a instalações de energia deixaram mais de 600 mil moradores sem luz na região de Dnipropetrovsk, segundo a distribuidora DTEK.

Um ataque de drone na região de Kharkiv tirou a energia de quase 250 mil clientes, afirma o prefeito de Zlatopil, Mykola Baksheyev. Em Zhytomyr, 140 prédios residenciais ficaram sem aquecimento, segundo Zelensky.

O presidente ucraniano também relatou um novo ataque de drone nesta manhã em Komyshuvakha, na região de Zaporizhzhia, onde equipes procuravam vítimas de um ataque anterior.

O número de mortos no ataque ao centro de distribuição de ajuda, na segunda-feira (2 de novembro), subiu para 55, segundo Zelensky.

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O que acontece agora

A AIEA negocia com Rússia e Ucrânia a reconexão da linha Ferosplavna, repetindo a mediação que funcionou em setembro deste ano. Na ocasião, um cessar-fogo local permitiu reparos que restabeleceram a energia externa da usina, que estava sem esse fornecimento desde 20 de agosto.

Enquanto a negociação não avança, o risco segue nos geradores a diesel. Falha nos equipamentos ou esgotamento do combustível pode comprometer o resfriamento do material nuclear e abrir caminho para um acidente radioativo, segundo o alerta da AIEA.

O que isso tem a ver com o Brasil

O Brasil está entre os países a quem a Ucrânia pediu ajuda contra os apagões. No sábado (7 de novembro), Zelensky pediu transformadores elétricos ao governo brasileiro para repor equipamentos destruídos nos ataques russos à rede de energia.

A crise na usina ucraniana chega enquanto o governo brasileiro discute o próprio programa atômico.

O ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, anunciou na sexta-feira (6 de novembro) que vai enviar ao Congresso um projeto de lei para reestruturar o setor nuclear nacional.

A proposta é pré-condição para decidir o futuro de Angra 3, a usina paralisada desde 2015. As obras, iniciadas na década de 1980, estão 66% concluídas e já receberam cerca de R$ 12 bilhões em investimentos.

Um estudo do BNDES estima em R$ 23,9 bilhões o custo necessário para concluir a usina.

O Brasil opera dois reatores, Angra 1 e Angra 2, sob salvaguardas da AIEA, a mesma agência que hoje monitora a situação em Zaporizhzhia.

O país também constrói um novo reator de pesquisa e viu o interesse de grupos estrangeiros por reservas de urânio crescer nos últimos meses.

O episódio de Zaporizhzhia é o tipo de risco que o Brasil tenta evitar ao reescrever as regras do próprio setor nuclear antes de retomar obras.