A mobilização de um balconista de farmácia nas redes sociais ajudou a derrubar a escala de trabalho 6x1 no Brasil. Para Cila Schulman, CEO do Instituto Ideia, o caso do deputado Rick Azevedo mostra que a mobilização on-line passou a influenciar a pauta do Congresso.

Rick Azevedo (PSOL) publicou, em 2024, um vídeo no TikTok sobre a carga de trabalho na farmácia onde era balconista. Segundo Schulman, o chefe dele respondeu que, se ele queria mudar aquela realidade, teria de mudar a lei.

"Ele foi eleito deputado, e a pauta do 6x1 acabou sendo um dos principais ativos do presidente Lula na campanha e foi aprovada no Congresso Nacional", disse Schulman, em entrevista ao programa WW Especial, da CNN Brasil.

O que diz a pesquisadora?

Schulman afirma que a mobilização de Azevedo não é um caso isolado, mas sinal de uma mudança maior na forma como políticas públicas nascem no país.

"É uma função da tecnologia, como já foi importante ser bom de palanque, como já foi importante ser bom de rádio e de televisão. No entanto, essa dinâmica está avançando para outros campos, inclusive o de política pública", afirmou.

A pauta do fim da escala 6x1 chegou a levar Flávio Bolsonaro (PL), hoje candidato à Presidência, a votar a favor da proposta mesmo sendo contrário a ela, segundo Schulman.

A pressão nasceu de um trabalhador nas redes, não de um partido, e virou constrangimento para quem discordava dela.

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O fenômeno vai além da esquerda

A ascensão de políticos a partir das redes atravessou o espectro político nas eleições de 2026. Nikolas Ferreira (PL-MG) e Lucas Pavanato (PL-SP) tiveram cada um mais de 3 milhões de votos para a Câmara.

O resultado dos dois superou o patamar anterior de 1,8 milhão de votos, recorde de Eduardo Bolsonaro em 2018. Eduarda Campopiano (PL-SP), de 23 anos, foi eleita deputada estadual com cerca de 2 milhões de votos.

Já Erika Hilton (PSOL), que articulou a candidatura de Azevedo, teve 1,4 milhão de votos. Ela soma mais de 6,2 milhões de seguidores entre Instagram e X, e é a mulher mais votada da história do país para a Câmara.

O que acontece agora

A mudança na escala de trabalho virou a Emenda Constitucional 141, promulgada pelo Congresso em sessão conjunta em 16 de outubro.

A transição é gradual: a jornada semanal cai primeiro de 44 para 42 horas, e só depois chega a 40, sempre com dois dias de folga remunerada.

A mudança vale para contratos já em vigor, sem redução salarial, e mantém férias, FGTS e 13º salário. A regra chega depois de o Senado aprovar o texto em primeiro turno e de a imprensa internacional tratar a aprovação como vitória política de Lula.