A nutricionista Ana Carolina Moraes, hoje com 44 anos, foi diagnosticada aos 38 com câncer de mama do subtipo HER2, um dos mais agressivos, sem ter histórico familiar da doença. Cinco anos depois, ela engravidou naturalmente e amamentou a filha recém-nascida, Helena.

Os primeiros sinais surgiram em 2019, enquanto Ana Carolina amamentava o filho Heitor, então com 1 ano e 7 meses. "Eu sou um ponto fora da curva. As coisas acontecem porque têm que acontecer, porque não têm muita justificativa", diz ela.

O tratamento incluiu quimioterapia, radioterapia e reconstrução mamária bilateral. Entre os efeitos colaterais estiveram a queda de cabelo, a menopausa química e a baixa contagem de óvulos.

Depois, o uso do tamoxifeno, remédio para reduzir o risco de recidiva, causou espessamento do endométrio e sangramentos intensos, a ponto de os médicos considerarem biópsia e até a retirada do útero.

"Sempre teve [o indicativo] de que eu não engravidaria nunca mais. Todos os meus hormônios eram de mulher em menopausa", afirma.

Como a gravidez aconteceu

Em 2024, após a suspensão do tamoxifeno, Ana Carolina voltou a menstruar, cinco anos depois de os ciclos terem sido interrompidos pelo tratamento. Mesmo assim, não acreditava numa gravidez natural aos 43 anos, já na pré-menopausa.

Era tão surreal para mim, eu tremia tanto, e eu olhava de novo para a caixa, e estava lá, é positivo

relembra ela, sobre o teste de farmácia que confirmou a gravidez de Helena.

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O que mostra a ciência

Um estudo da American Society of Clinical Oncology acompanhou 1.213 mulheres com câncer de mama não metastático por mais de dez anos. Das 197 que tentaram engravidar depois do tratamento, 73% conseguiram, e 65% tiveram um bebê vivo.

Apenas 28% das participantes haviam feito preservação de fertilidade antes do tratamento, como congelamento de óvulos, mas quem fez teve chances significativamente maiores. "A pesquisa traz um cenário esperançoso para essas pacientes jovens", diz a oncologista Patrícia Taranto, do Hospital Israelita Albert Einstein.

O tratamento do câncer de mama pode levar à infertilidade em até metade dos casos, por supressão da função ovariana.

Ainda assim, histórias como a de Ana Carolina não são isoladas: uma baiana que também superou a doença criou um dispositivo de LED para saúde íntima de mulheres.

Outras pacientes, porém, esbarram em entraves do sistema: a espera pelo início do tratamento no SUS é hoje 3 vezes maior do que a lei permite.

Do lado dos avanços, a Anvisa aprovou um remédio oral que reduz em 56% o avanço do câncer de mama, ampliando as chances de tratamentos menos agressivos.