A Raízen, joint venture entre Cosan e Shell, negocia a maior recuperação extrajudicial do país, com cerca de R$ 65 bilhões em dívidas. A Justiça de SP homologou o plano em 30 de julho; acionistas votam as medidas finais dia 30 de outubro.

A crise começou com uma aposta no etanol de segunda geração (E2G), o combustível feito do bagaço da cana. O retorno não veio na velocidade esperada, e o mercado não pagou o prêmio que a Raízen previa pelo produto mais sustentável.

A aposta ficou mais cara quando os juros subiram e o etanol de milho, mais barato e mais simples de produzir, avançou no mercado brasileiro. A vantagem do E2G minguou bem no momento em que a dívida para bancá-lo pesava mais.

A empresa também se espalhou em frentes distintas, como trading de commodities, energia solar, a rede de lojas Oxxo e projetos internacionais. A controladora Cosan, ao mesmo tempo, investiu pesado na mineradora Vale, o que reduziu sua capacidade de socorrer a Raízen.

O pedido de recuperação foi aceito pela Justiça em 12 de março.

Analistas do Bank of America recomendam vender a ação a R$ 0,23 e avaliam que ainda há espaço para cair. No mercado de dívida, títulos da empresa que valiam mais de 80 centavos de dólar caíram para cerca de 45 centavos em uma semana.

Os rendimentos desses títulos chegaram a 18% ao ano, nível típico de empresas em forte estresse financeiro. Os credores negociam ficar com fatia relevante da companhia. Uma proposta prevê converter 45% da dívida em ações, e outra pede até 90% da empresa.

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O plano aprovado pela Justiça também muda o comando da empresa. Todo o atual conselho de administração será substituído por sete novos membros, e a assembleia que vai confirmar o pacote acontece em 30 de outubro.

Shell e a Aguassanta Participações, família Ometto, são cotadas para injetar entre R$ 3,5 bilhões e R$ 4 bilhões de capital novo na empresa, segundo o plano homologado pela Justiça de São Paulo.

A Raízen já vendeu ativos para levantar caixa. Em setembro, passou uma usina de cana em Mato Grosso do Sul à Adecoagro por R$ 705 milhões.

O ponto em aberto

A reestruturação resolve o problema jurídico da dívida, mas não resolve sozinha a desconfiança do mercado. O próprio Bank of America vê espaço para a ação cair ainda mais depois da troca por papel novo.

A pergunta que fica é se o plano homologado em tribunal convence investidores, ou se a queda de quase 50% nos bonds em uma semana vai se repetir quando as novas ações estrearem na B3.