O mercado de títulos do Tesouro dos Estados Unidos, hoje avaliado em US$ 32 trilhões, trocou de dono nos últimos 20 anos. Investidores privados, mais sensíveis a preço, já detêm cerca de 70% da dívida federal americana, o maior nível desde 1990.

Há duas décadas, o endividamento do governo americano fez o mercado crescer sete vezes. Governos estrangeiros, bancos centrais e fundos de pensão, batizados de "dinheiro paciente", perdem espaço relativo, embora sigam segurando os títulos no longo prazo.

Quase um décimo do mercado pertence hoje a hedge funds, batizados de "dinheiro rápido" por reguladores, que usam alavancagem para explorar distorções e podem se desfazer dos títulos com rapidez.

O que preocupa o governo americano

O que preocupa o governo americano é a reação de um credor mais sensível a preço diante de más notícias. Para o secretário do Tesouro, Scott Bessent, e o presidente do Federal Reserve, Kevin Warsh, compradores sensíveis a preço têm mais poder do que nunca.

Para Anshul Pradhan, chefe de estratégia de juros dos EUA no Barclays, esse comportamento revela "o verdadeiro custo do dinheiro".

O que muda para o crédito no Brasil

O crédito no Brasil fica mais caro quando os juros longos dos Estados Unidos sobem. O investidor passa a exigir um retorno mínimo maior em qualquer ativo brasileiro, da ação ao título público do Tesouro Nacional.

O Tesouro de 10 anos dos Estados Unidos passou de 5,2% ao ano, e o de 30 anos, de 5,7%, maior nível desde 2002 e 2004, respectivamente.

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No Brasil, o Tesouro IPCA+ 2050 voltou a pagar mais de 7% ao ano acima da inflação em outubro, e os juros cobrados em financiamento imobiliário e crédito empresarial também sobem.

O CIO da Suno Consultoria, João Arthur, resume o mecanismo:

Se o governo americano paga 5% ao ano, o governo brasileiro tem que pagar mais.

Para Ricardo Trevisan, CEO da Gravus Capital, o investidor que migra para dólar busca proteção, não rentabilidade. Para ele, "o investidor se protege do cenário ruim, não do cenário médio".

Isso significa que o Banco Central perde margem para cortar a Selic enquanto os juros americanos seguem nesse patamar, porque um corte muito rápido poderia afastar capital estrangeiro e pressionar ainda mais o câmbio.

A taxa básica brasileira, a Selic, está em 13,75% ao ano. A pressão externa é um dos fatores citados para a possibilidade de o Copom elevar os juros, em vez de reduzi-los.