Os Estados Unidos devem emitir perto de US$ 1 trilhão em letras do Tesouro de curto prazo no próximo ano, segundo bancos de Wall Street citados pela Folha. A aposta cresce com os juros dos Treasuries em níveis vistos antes da crise de 2008.

O Bank of America calcula US$ 1,07 trilhão em letras no ano fiscal até setembro de 2027. O JPMorgan projeta US$ 1,09 trilhão no ano-calendário de 2027, enquanto o Goldman Sachs estima US$ 961 bilhões.

As letras vencem em até um ano e precisam ser renovadas com mais frequência. Por isso, quanto maior a fatia desse papel, maior a exposição do Tesouro americano a mudanças rápidas nos juros.

A discussão interessa ao Brasil porque os Treasuries são referência global para juros e fluxo de capital. A TV Sim já mostrou que o dólar fechou a R$ 5,14 após decisões opostas de Fed e Copom.

Por que a dívida curta preocupa?

A dívida curta preocupa porque vence rápido e força o governo dos EUA a voltar ao mercado com frequência. Se o investidor exigir juros maiores, o custo de rolagem sobe mais depressa do que ocorreria em títulos longos.

Segundo a Folha, o secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, tenta conter o custo dos empréstimos longos. Ele anunciou planos para ampliar compras de papéis com vencimento entre 10 e 30 anos.

A fatia projetada é o dado sensível. O Bank of America estima que as letras cheguem a cerca de US$ 8 trilhões, ou 24,3% da dívida negociável do Tesouro, até setembro de 2027. O Goldman Sachs vê 24,9% em 2028.

Esse patamar fica acima da meta de cerca de 20% ao longo do tempo indicada pelo Comitê Consultivo de Empréstimos do Tesouro. A diferença é de 4,3 a 4,9 pontos percentuais.

Como o mercado lê o Fed?

O mercado lê o Fed pela ponta curta da curva, onde os títulos de dois anos reagem mais diretamente à política monetária. Segundo o InfoMoney, esses rendimentos chegaram a cerca de 4,75% após a primeira alta de juros desde 2023.

Os contratos futuros precificam mais 80 pontos-base de aperto no próximo ano, ainda segundo o InfoMoney. O movimento ajuda a explicar por que investidores passaram a buscar papéis curtos.

"Se analisar qualquer parte da curva agora e perguntar onde há um potencial excesso de rendimento, a resposta parece estar no curto prazo", disse Kevin Flanagan, chefe de estratégia de investimento da WisdomTree, ao InfoMoney.

Para o investidor brasileiro, o pano de fundo é conhecido. A TV Sim já registrou que os juros longos dos EUA pressionam o custo da dívida brasileira e que a China reduziu seus títulos americanos ao menor nível em 18 anos.

O que acontece agora

O próximo teste será o plano de financiamento do Tesouro americano e a reação do mercado às próximas comunicações do Fed. Se as projeções dos bancos se confirmarem, a parcela curta da dívida ficará acima da referência oficial.

O Brasil acompanha esse ajuste por dois canais. Um é o câmbio, sensível ao prêmio pago pelos EUA; o outro são as reservas, já que a TV Sim mostrou que o país vendeu US$ 61 bi em Treasuries e ampliou a posição em ouro.