Aportes mensais de R$ 50 ou R$ 200 poderiam complementar a aposentadoria de cerca de 38,5 milhões de trabalhadores informais no Brasil, como motoristas de aplicativo e entregadores, segundo estudo da gestora Tivio Capital. O obstáculo é a taxa de administração cobrada pelos fundos.

O levantamento, batizado "A terceira margem da previdência: micropensões, planos instituídos e a aritmética do ticket pequeno", mapeia o potencial desse tipo de produto para quem não tem carteira assinada.

Motociclistas de aplicativo no trânsito
Trabalhadores por aplicativo são parte do público que as micropensões tentam alcançar — Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Quanto rende um aporte pequeno

Trinta anos de aportes de R$ 50 por mês, com retorno real de 4% ao ano, acumulam cerca de R$ 34,3 mil, valor bruto de custos administrativos. Isso se converte em uma renda de aproximadamente R$ 206 por mês ao longo de 20 anos.

Esse valor corresponde a 13% de um salário mínimo de 2026. Com aportes de R$ 200 mensais, a renda final chega perto de metade de um salário mínimo, segundo o estudo.

Para que esses números sejam possíveis na aposentadoria é necessário ter uma taxa de administração baixa nos fundos. Se isso não acontecer, esse sistema não para em pé.

A avaliação é de Frederico Duarte, responsável pelas relações com investidores institucionais da Tivio Capital e autor do estudo.

A diferença entre os dois tipos de fundo

A taxa média de administração das Entidades Fechadas de Previdência Complementar (EFPC), os fundos de empresas, é de 0,28% ao ano. No segmento aberto, vendido ao público em geral, a média sobe para 1,2% ao ano, segundo o Ministério da Previdência Social.

A diferença aparece no resultado final. De 2017 a março de 2026, os fundos fechados acumularam rentabilidade de 161,8%, contra 109,7% dos fundos abertos, aponta o Relatório Gerencial de Previdência Complementar (RGPC).

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Quanto maior a taxa que o fundo cobra, menor é o efeito dos juros compostos ao longo de décadas, e é esse efeito que faz um aporte pequeno virar renda relevante no fim da vida profissional.

Entre as entidades que administram planos instituídos, a despesa administrativa mediana chega a R$ 395 por participante ao ano. O valor equivale a 66% de um aporte anual de R$ 600, o equivalente a R$ 50 por mês.

O sistema de previdência complementar já movimenta R$ 3,35 trilhões no Brasil, equivalente a 26% do PIB.

Mas atende sobretudo quem já tem emprego formal ou renda mais alta. Nos últimos 12 meses até março, pagou R$ 100,55 bilhões em benefícios a cerca de 950 mil aposentados, uma fração dos 38,5 milhões de informais que as micropensões tentam alcançar.

O momento é desafiador para o setor. Os aportes em previdência privada aberta caíram 10,5% até maio de 2026, segundo levantamento do setor.

Outras iniciativas já miram o mesmo público. O Crédito do Move Brasil oferece juros de 0,99% ao mês para entregadores.

O Desenrola Adimplentes tem taxa de 1,99% ao mês para informais em outra frente de crédito ao mesmo público.

O ponto em aberto

O estudo mostra que a aritmética funciona no papel. Aportes pequenos, mantidos por décadas, podem virar uma renda relevante para quem nunca teve acesso a previdência formal.

Falta saber se a indústria vai conseguir cobrar taxas baixas o suficiente para esse público, já que o próprio estudo reconhece que o modelo só funciona com escala e custo administrativo reduzido.