A AIA, associação da indústria aeroespacial e de defesa dos EUA, alertou nesta quinta-feira (8) que o Project Vault, plano de US$ 12 bilhões do governo americano para estocar minerais críticos, pode elevar preços e a concorrência por materiais escassos.

O Project Vault é financiado por US$ 10 bilhões em empréstimo do Export-Import Bank dos EUA (Ex-Im Bank), somados a US$ 2 bilhões em capital privado. As prioridades iniciais incluem titânio, escândio, tungstênio e terras raras.

A AIA (Aerospace Industries Association) afirmou, em relatório divulgado nesta quinta, que o governo americano "deveria agir com cautela" para não distorcer o mercado. Entre seus associados estão a Palantir Technologies e a BAE Systems.

O grupo pede que o governo explique como o Vault vai operar antes de fazer qualquer compra, para não competir com empresas privadas por minerais já escassos. Procurado pela Folha/Financial Times, o Pentágono se recusou a comentar.

O Project Vault é um amortecedor contra choques para os fabricantes americanos

A frase é do Ex-Im Bank, em comunicado que nega que o plano vá disputar insumos com o setor privado. Os preços do tungstênio e das terras raras dispararam nos últimos dois anos, à medida que a China restringiu a exportação desses insumos.

A corrida por fornecedores alternativos já chegou à Espanha. A mineradora Abenojar Tungsten vendeu toda a produção que vai extrair nos próximos dez anos para a trading Traxys, que vai abastecer o Project Vault.

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O que o Brasil tem a ver com isso?

O Brasil concentra 98% das reservas mundiais de nióbio, segundo o Instituto Brasileiro de Mineração (IBRAM), e tem a 2ª maior reserva de terras raras do planeta, dois minerais citados no relatório da AIA como estratégicos para a indústria de defesa.

O domínio sobre o nióbio já gera disputa interna. Tramita ação judicial entre a CBMM e a mineradora St. George por uma área de nióbio em Araxá, em Minas Gerais.

Em abril, a americana USA Rare Earth anunciou a compra da mina de terras raras Serra Verde, em Minaçu (GO), negócio com US$ 1,6 bilhão em financiamento do governo dos EUA e previsto para fechar até o fim de agosto.

O movimento não é isolado. A australiana Lynas também comprou um projeto de terras raras em Minas Gerais por R$ 3,5 bilhões.

Dados do comércio exterior mostram o tamanho do desequilíbrio. Somente em 2026, Minaçu exportou cerca de 678 toneladas de terras raras para a China, contra apenas 51 kg para os Estados Unidos.

Apesar do tamanho das reservas, o país ainda tem dificuldade para transformar o minério em receita. Falta de refino local e de cadeia produtiva interna encarece a exportação do insumo bruto.

O que acontece agora

O Brasil já deu sua resposta ao interesse internacional em setembro, quando o presidente Lula sancionou lei que destina R$ 7 bilhões a projetos de minerais críticos, embora Minas Gerais tenha alertado para riscos na nova regra.

A AIA ainda não disse se vai levar a reclamação adiante nem quando o Ex-Im Bank vai detalhar como vai operar as compras do Project Vault. Para o setor aeroespacial americano, cada metal comprado pelo governo é um metal a menos disponível no mercado livre.