A escritora canadense Anne Carson, de 76 anos, venceu nesta quinta-feira (8) o Prêmio Nobel de Literatura 2026. A Academia Sueca a premiou por uma obra "ousada e criativa" em diálogo com a tradição clássica, que criou novas formas para a literatura contemporânea.

O prêmio tem valor de 12 milhões de coroas suecas, cerca de US$ 1,2 milhão.

Segundo Ingrid Carlberg, secretária permanente da Academia, Carson foi "pega totalmente de surpresa": "Tudo o que ela conseguiu dizer foi que, no momento, está na Islândia, ouvindo o vento".

A obra de Carson mistura verso, prosa, diálogo e tradução, desafiando a separação entre os gêneros literários.

É conhecida por suas traduções da literatura clássica grega, que atravessam livros como "Autobiography of Red" (1998) e a peça "Norma Jeane Baker of Troy" (2019), sobre Helena de Troia e Marilyn Monroe.

Por que os livros de Anne Carson resistem a rótulos?

Carson rejeita sistematicamente as etiquetas que tentam defini-la: poeta, romancista, tradutora, classicista, ensaísta. Seus próprios livros reforçam essa recusa nos subtítulos: "Autobiografia do Vermelho" (1998) se apresenta como "um romance em versos", e "A Beleza do Marido" (2001) como "um ensaio ficcional em 29 tangos".

Publicidade

A autora nomeia para confundir, não para esclarecer, e com isso aponta para a futilidade de qualquer esforço de classificação.

Natural de Toronto, Carson descobriu a paixão pelo grego antigo no ensino médio, com um professor de latim que aceitou lhe dar aulas no horário de almoço. Formou-se em Estudos Clássicos pela Universidade de Toronto, depois de abandonar o curso duas vezes.

Seu livro de estreia, "Eros, o Doce-Amargo" (1986), parte de um adjetivo composto por Safo que define o amor como dor e doçura combinadas. A obra chegou ao Brasil em 2022, pela editora Bazar do Tempo.

"Quem é o verdadeiro sujeito da maioria dos poemas de amor? Não é a pessoa amada. É aquele buraco", escreve Carson no mesmo livro.

Com o prêmio, Carson entra para uma lista que inclui nomes como Alexander Solzhenitsyn, Alice Munro e Ernest Hemingway. A Academia já foi criticada por ignorar autores como Liev Tolstói e Virginia Woolf, e por premiar escolhas consideradas obscuras.

O que acontece agora

O anúncio de Carson fecha a semana de premiações do Nobel 2026, que já havia revelado os vencedores de Química, por uma descoberta que facilita a produção de remédios, e de Física, por uma pesquisa sobre gelo na Antártida.

Na área de Medicina, o prêmio também gerou debate: a Academia premiou ensaios de fase 3 contra o autismo, e não a droga Ozempic, como parte do mercado apostava.

Depois da Literatura, faltam os anúncios dos prêmios de Paz e de Ciências Econômicas para fechar o ciclo de 2026.