O Brasil perdeu 94% de sua população de jumentos desde os anos 90, caindo de 1,37 milhão para 78 mil animais, segundo dados do IBGE e da FAO citados em projeto que tramita no Senado. O abate ilegal exporta a pele à China.

A pele vira matéria-prima do ejiao, remédio chinês feito de colágeno animal, e pode valer até US$ 4 mil no mercado internacional.

A série mostra o ritmo: 1,37 milhão de cabeças nos anos 90, 900 mil em 2011, 371 mil em 2017 e 78 mil em 2025. Pesquisadores apontam risco de extinção até 2030. O dado está no projeto do Senado.

A bióloga Patrícia Tatemoto, consultora do The Donkey Sanctuary e pesquisadora do tema há oito anos, explica que só a pele do animal interessa ao comércio. "Para a medicina tradicional chinesa, só vale quando é a pele e o colágeno do jumento", afirma.

O transporte dos animais até os pontos de abate é um dos elos mais graves da cadeia. Segundo Tatemoto, parte dos jumentos morre no caminho por doenças respiratórias subnotificadas. "Parece uma pneumonia e por isso é subnotificada... 96% de chance de morrer", diz.

Ela também relata falhas na documentação de origem dos animais: "Este não é um documento verossímil quanto à origem."

O que a lei brasileira pretende mudar?

A lei em discussão, o PL 2.613/2026, proíbe o abate do jumento em todo o território nacional, exceto por motivo sanitário. O texto nasceu da Sugestão Legislativa 9/2025, apresentada pelo Fórum Nacional de Proteção e Defesa Animal.

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O relator, senador Fabiano Contarato (PT-ES), deu parecer favorável na Comissão de Direitos Humanos. "Além de preservar a espécie frente ao risco iminente de extinção, a medida promove o bem-estar animal", disse.

Em abril, a 1ª Vara Federal Cível da Bahia já havia determinado o fim do abate na região por decisão judicial. Na Câmara, mais de 120 propostas sobre o tema tramitam desde 2022, incluindo o PL 1973/22.

A justificativa do projeto também cita risco sanitário: peles sem rastreabilidade podem espalhar doenças como o mormo entre cavalos. José Roberto Lima, da Comissão de Medicina Veterinária Legal da Bahia, descreve a captura: "Os animais são capturados pelo Nordeste inteiro... depois levados para exportação."

Para Tatemoto, a perda vai além do número de cabeças.

O jumento nordestino desenvolveu, em 500 anos no país, um genoma adaptado a áreas desertificadas que não existe em nenhum outro lugar do mundo. É um patrimônio genético relevante justamente em um período de crise climática, segundo a pesquisadora.

O que acontece agora

O prazo de emendas ao PL 2.613/2026 terminou em julho, e o texto aguarda votação nas comissões do Senado, sem data definida. Como alternativa, pesquisadores da UFPR desenvolvem colágeno sintético para substituir o de origem animal no ejiao.