Uma crise no cinturão agrícola dos Estados Unidos, com diesel a mais de US$ 6,50 o galão e juros altos sobre o crédito da safra, aproxima o Brasil de virar o maior exportador agrícola do mundo, com vendas recordes, diz o Financial Times.

John Yeley trabalha há 26 anos na fazenda da família, em Illinois, na divisa com Indiana. A propriedade é dos Yeley desde 1852, e ele é a sétima geração a administrar o negócio.

Ainda assim, Yeley hesita sobre o futuro dos dois filhos, de 16 e 12 anos, na atividade.

Grãos de soja sendo despejados durante colheita
Soja despejada durante a colheita: o agronegócio brasileiro se aproxima da liderança mundial em exportações Foto: Governo do Pará/Divulgação

"Do jeito que as coisas estão agora, não. Eu não desejaria isso para eles", disse Yeley à CNN, sobre a vontade de que os filhos assumam a fazenda.

O diesel é o problema mais urgente do produtor americano. A média nacional do combustível está perto do recorde de US$ 6,53 por galão; em Illinois, chegou a US$ 6,82, no mesmo recorde de diesel que já ameaçava a colheita brasileira em setembro.

Yeley costuma comprar 8.500 galões duas vezes por ano, mas pela primeira vez não fechou carga completa nesta safra. Está comprando aos poucos, de 1.000 a 1.500 galões por vez, à espera de o preço cair.

Não somos um condado grande, mas três agricultores quebraram este ano. Sei que isso está na cabeça de todo mundo: será que realmente vale a pena continuar? O nível de estresse está bastante alto.

A frase é de Yeley à CNN. Especialistas descrevem o momento como uma recessão dolorosa: disputas comerciais reduziram o acesso a mercados, e as guerras na Ucrânia e no Oriente Médio elevaram o custo dos fertilizantes.

Os juros mais altos encareceram o crédito da safra. Atrás dos números do comércio exterior está gente que não sabe mais se vale a pena continuar plantando.

Como o Brasil se aproxima do topo do agro mundial

Em 2025, os EUA venderam US$ 171 bilhões em produtos agrícolas, contra US$ 169,2 bilhões do Brasil, uma diferença de US$ 2 bilhões, a menor já registrada, segundo o Financial Times.

Em setembro, o Brasil já estava a US$ 2 bi de virar o maior exportador agrícola do mundo. Em 2005, os EUA exportavam 137% a mais que o Brasil no setor.

Entre 2020 e 2025, essa vantagem caiu de US$ 50 bilhões para US$ 2,1 bilhões, segundo dados do USDA e do MDIC. No 1º semestre deste ano, o agro brasileiro somou recorde de US$ 87 bilhões em vendas.

A demanda da China é fator central: as compras chinesas de soja e algodão do Brasil se intensificaram depois de 2018, quando as tarifas de Trump levaram Pequim a retaliar contra o agro americano.

Ainda assim, inspeções de soja para exportação nos EUA subiram 11,6% na semana, segundo o USDA, e a retomada das compras chinesas aos americanos já levou a Abiove a reduzir a previsão de exportação do Brasil em 2026.

No milho, os EUA seguem líderes globais, mas a fatia americana no comércio mundial do grão caiu de 68% para cerca de 30% em duas décadas, o mesmo período em que o Brasil ampliou a produção.

O que acontece agora

O mesmo mercado global de combustível que sufoca o produtor americano deixa o Brasil dependente dos EUA.

Segundo a Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom), 80% do diesel importado pelo país em setembro veio dos americanos, depois que a Rússia cortou embarques em julho.

Trump avalia restringir também essa exportação, o que exporia mais o Brasil no pico de consumo de diesel, em outubro.