O foguete Starship, da SpaceX, chegou à órbita terrestre pela primeira vez na segunda-feira (28), numa altitude de 275 km, e liberou 26 satélites operacionais da Starlink de uma só vez. O avanço é descrito como um divisor de águas para a indústria espacial.

A TV Sim Brasil já havia coberto o lançamento orbital da Starship. Agora, o que preocupa parte do setor é o efeito colateral desse sucesso.

Por que o avanço virou crise para outras empresas?

Segundo Caleb Henry, diretor de pesquisa da consultoria Quilty Space, operadores de pequenos satélites vivem uma crise que já se formava havia seis meses. Startups de internet via satélite, conectividade direta a celular e data centers em órbita para IA estão entre os afetados.

O problema é a perda de previsibilidade: com a Starship elevando a capacidade de carga por lançamento, empresas menores não sabem mais quando nem a que preço vão conseguir reservar espaço num foguete.

Como essas empresas estão reagindo?

A finlandesa Iceye negocia lançamentos futuros com a francesa Arianespace. "Tomamos medidas preventivas bem antes dessa conversa", disse Eric Jensen, COO da empresa. Já a Spire, segundo a CEO Theresa Condor, mantém cronograma de lançamentos fechado até 2028.

Robert Sproles, CEO da Exolaunch, espera uma volta ao cenário anterior, quando as empresas reservavam lançamentos com dois ou três anos de antecedência. "A indústria espacial odeia incerteza, principalmente quando se trata de planejar lançamentos", resume o analista Micah Walter-Range.

Lançar um quilo até a órbita custa hoje entre US$ 7.500 e US$ 10 mil. O Falcon 9, outro foguete da SpaceX, voou 77 vezes nos seis primeiros meses de 2026, mais que o dobro dos foguetes chineses Longa Marcha no mesmo período.

A própria SpaceX resume a estratégia na voz da presidente Gwynne Shotwell: "Se não tornarmos obsoletos os nossos próprios produtos e serviços, alguém vai encontrar um jeito de torná-los obsoletos por nós".

No 2º trimestre de 2026, o segmento de foguetes da SpaceX (Falcon, Dragon, Starship) teve prejuízo de US$ 542 milhões, enquanto a Starlink lucrou US$ 1,7 bilhão.

É essa receita que financia a aposta na Starship, com custo de lançamento ainda mais barato que o dos concorrentes.

A Nasa, que contratou 17 voos da cápsula Dragon por US$ 5,92 bilhões, também sentiu o lado instável do programa: uma falha de motor pode atrasar a missão lunar que depende do mesmo foguete.

O ponto em aberto

A SpaceX aposta em abandonar o que funciona antes que a concorrência a force a isso, mesmo que o preço seja desorganizar o planejamento de quem depende dela para operar no espaço.

Enquanto a Starlink pagar essa conta, nada impede que a mesma incerteza se repita a cada novo salto de capacidade da Starship.