Pesquisadores da USP e da Universidade de Uppsala, na Suécia, desenvolveram uma inteligência artificial capaz de identificar o tipo mais letal de infarto, causado pelo bloqueio total das artérias do coração. O sistema analisa o eletrocardiograma (ECG) e aponta o local exato da obstrução.
Nenhuma outra ferramenta validada no Brasil fazia isso até agora. O estudo foi publicado na revista científica Nature Communications.
O texto descreve o primeiro modelo validado em população brasileira capaz de identificar e localizar infartos por oclusão coronariana usando apenas o ECG de 12 derivações, exame rápido, acessível e de baixo custo.
O algoritmo foi treinado com 540.372 eletrocardiogramas de serviços de emergência suecos e validado em 401 pacientes do Instituto do Coração (InCor), da USP, com confirmação por cateterismo.
A acurácia chegou a 96% nos casos com elevação do segmento ST, sinal clássico do infarto grave, e a 82% nos casos sem esse achado.
Por que o diagnóstico rápido importa tanto
A velocidade do diagnóstico decide a chance de sobrevivência. Quando a artéria entope por completo, o músculo cardíaco para de receber oxigênio e morre de forma irreversível em poucos minutos.
“Nos casos de infarto agudo do miocárdio, as decisões precisam ser rápidas, pois cada minuto importa. Se a artéria estiver totalmente obstruída e não permitir levar o oxigênio, o músculo cardíaco morre e isso é irreversível”, afirma José Eduardo Krieger.
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Krieger é diretor do Laboratório de Genética e Cardiologia Molecular do InCor e um dos autores do estudo. O projeto tem apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e ainda é considerado experimental.
Krieger explica que, quando o paciente não chega rápido ao hospital, as equipes de ambulância enfrentam um dilema: aplicar ou não um trombolítico, medicamento que desobstrui a artéria, mas pode causar efeitos colaterais graves, como um AVC hemorrágico.
“A IA funciona como um classificador de alta precisão que dá mais segurança para agir quando o benefício supera o risco”, diz o pesquisador.
O que acontece agora
A expectativa dos pesquisadores é que o sistema passe a analisar os dados do ECG em tempo real, ainda dentro da ambulância, identificando os sinais de oclusão coronariana antes da chegada ao hospital.
O modelo segue em fase experimental e não tem data definida para uso clínico rotineiro. É mais um projeto de uma onda recente de ferramentas digitais de diagnóstico precoce desenvolvidas no Brasil.
No Brasil, as doenças cardiovasculares matam uma pessoa a cada 72 segundos, o que reforça o peso de qualquer ferramenta capaz de acelerar o diagnóstico nos primeiros minutos do atendimento.































