Um estudo publicado no European Heart Journal associou o consumo frequente de uma combinação de oito aditivos usados em alimentos ultraprocessados a maior risco de hipertensão e de doenças cardiovasculares. A pesquisa acompanhou mais de 112 mil adultos na França por cerca de sete a oito anos.

Batizado de NutriNet-Santé, o levantamento usou registros detalhados de alimentação preenchidos periodicamente pelos próprios participantes. Os pesquisadores analisaram as substâncias como elas aparecem na prática — misturadas na mesma formulação —, e não uma a uma. Entre os participantes com maior consumo dessa combinação, o estudo encontrou risco 29% maior de hipertensão e 16% maior de doenças cardiovasculares, como infarto e AVC.

Os 8 aditivos que compõem a combinação analisada no estudo, com o código que aparece no rótulo — conferido em 23/09/2026
AditivoCódigo no rótulo
Sorbato de potássioINS/E202
Metabissulfito de potássioINS/E224
Nitrito de sódioINS/E250
Ácido ascórbicoINS/E300
Ascorbato de sódioINS/E301
Eritorbato de sódioINS/E316
Ácido cítricoINS/E330
Extrato de alecrimINS/E392

Estar nessa lista não significa que a substância, sozinha, cause hipertensão ou doença cardiovascular: o estudo mede o efeito do conjunto. É o caso do ácido ascórbico (INS/E300), que é a própria vitamina C — nutriente essencial, usado pela indústria como antioxidante para retardar a deterioração de sucos, embutidos e conservas. A pesquisa não avaliou o consumo isolado de nenhum dos oito aditivos.

O estudo prova que os aditivos causam hipertensão?

Não. O próprio estudo aponta associação, não relação de causa direta entre os aditivos e a hipertensão. É preciso mais pesquisa para confirmar se existe um mecanismo biológico que explique a ligação encontrada nos dados.

"Eles podem conservar o alimento por mais tempo, reduzir a deterioração, modificar textura e manter características sensoriais esperadas pelo consumidor", explica a nutricionista Risoneide Calazans, diretora do Conselho Federal de Nutrição (CFN).

"O mais importante é avaliar o conjunto da alimentação e a frequência de consumo de ultraprocessados", diz Calazans. Segundo ela, um produto pode ter só aditivos autorizados e, ainda assim, não ter um bom perfil nutricional.

Aditivos alimentares também incluem antioxidantes, corantes, aromatizantes, emulsificantes e edulcorantes, e costumam aparecer combinados na mesma formulação — o que é justamente o ponto de partida do estudo francês.

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A questão dos ultraprocessados já rendeu outros levantamentos no Brasil. 79% dos alimentos vendidos como "fit" no país são, na prática, ultraprocessados, mostrou pesquisa recente.

Nem toda crítica aos ultraprocessados tem o mesmo rigor científico. Vídeos que viralizam expondo ultraprocessados podem trazer imprecisões, segundo especialistas consultados pela reportagem.

Outros estudos recentes também associam hábitos alimentares a doenças específicas. Um levantamento alemão relacionou dieta rica em gordura a maior risco de câncer colorretal.