Reduzir o consumo de alimentos ultraprocessados por quatro semanas aliviou sintomas de depressão em um pequeno estudo publicado em 23 de setembro na revista JAMA Psychiatry. Pesquisadores da Universidade da Califórnia em São Francisco (UCSF) acompanharam 20 adultos com depressão e consumo elevado desses alimentos.

A pontuação média de sintomas, medida pela escala PHQ-9, caiu de 8,68 na dieta habitual para 5,53 durante a fase com menos ultraprocessados. Outras duas escalas de depressão usadas no estudo registraram queda semelhante.

Como o estudo foi feito

Dezenove dos 20 participantes concluíram o acompanhamento. Cada um passou quatro semanas com a alimentação habitual e quatro semanas com menos ultraprocessados, em ordem sorteada, mantendo estáveis remédios, terapia, exercício e sono.

Todos tinham índice de massa corporal elevado e ao menos um distúrbio metabólico; a idade média era de 44 anos, e 70% eram mulheres. Catorze dos 20 também tinham ansiedade, que melhorou de forma mais modesta.

Os participantes cortaram o consumo de ultraprocessados em mais de 85% durante a fase de intervenção, segundo o estudo.

O que pode explicar o efeito

A pesquisadora Nyasha Chagwedera, uma das autoras, propõe um mecanismo ligado ao intestino. Alimentos ultraprocessados poderiam danificar o revestimento intestinal e gerar inflamação crônica de baixo grau no corpo, o que favoreceria ou agravaria a depressão.

O autor sênior do estudo, Andrew Krystal, da UCSF, disse que o trabalho estabeleceu a viabilidade de realizar essa pesquisa em um ensaio de maior escala, segundo comunicado da universidade.

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Pesquisas anteriores já associavam dieta rica em ultraprocessados a maior risco de depressão, mas sem explicar o mecanismo por trás da ligação. Em setembro, outro estudo já havia associado uma combinação de 8 aditivos de ultraprocessados a risco cardíaco.

O Brasil também é alvo dessa linha de pesquisa: uma projeção recente aponta aumento no consumo de ultraprocessados e álcool no país até 2030.

O estudo é pequeno e preliminar: seu objetivo principal era testar se a mudança de dieta era viável de ser aplicada, não provar que ela trata a depressão.

Houve melhora em relação ao início mesmo durante a dieta habitual, o que reforça que a comparação central é entre os dois períodos alimentares, não um resultado isolado.

Nem todo alimento industrializado é ultraprocessado. A classificação usada no estudo considera ultraprocessado o produto com corantes e aditivos artificiais que se afasta do alimento original, caso de refrigerantes, salgadinhos e gelatinas — categoria que, no Brasil, inclui 79% dos alimentos vendidos como "fit".

O que acontece agora

A UCSF planeja um estudo de seguimento maior, com recrutamento previsto para 2028, para confirmar se o efeito se mantém numa amostra mais ampla e por mais tempo.