O avanço da presença militar dos Estados Unidos na América do Sul deixou o Brasil em posição de vulnerabilidade geopolítica, avalia o professor Gunther Rudzit. Para ele, o país está numa posição "praticamente bem cercada" pela aproximação dos EUA com Paraguai, Equador e Bolívia.

Segundo Rudzit, parte do narcotráfico que atravessa o Brasil tem como destino a Europa, não os Estados Unidos. Mas isso não pesa para o eleitor americano.

"A gente tem que entender que esse combate ao narcotráfico não é uma ideia de imposição do governo Trump 2, é resultado dessa percepção da sociedade americana que quer esse combate ao narcotráfico", disse Rudzit à CNN Brasil.

O professor, da ESPM e da Unifa, usa a metáfora de um "software antigo" para descrever a leitura do Planalto sobre o cenário internacional. É uma visão moldada pela era da globalização, anterior ao fenômeno Trump.

"O governo brasileiro precisa entender que a realidade mudou e não adianta ficar olhando o mundo com lentes antigas", afirmou o especialista.

O que o Pentágono cobra do Brasil?

O Pentágono cobra do Brasil mais ação contra os cartéis de droga. Uma fonte do Departamento de Defesa dos EUA disse à CNN Brasil, em 5 de março, que o governo Trump espera que Brasil, Colômbia e Uruguai façam mais no combate ao narcotráfico.

O Brasil não participou da Conferência sobre Cartéis, promovida em março pelo Comando Sul dos EUA na Flórida. O encontro reuniu militares de outros 17 países, o mesmo grupo com que os EUA tinham ativado uma força-tarefa militar no Hemisfério Ocidental em agosto.

Fontes do governo brasileiro afirmam que o tema segue na agenda bilateral com Washington, inclusive na preparação de um possível novo encontro entre Lula e Trump. Itamaraty e embaixada brasileira nos EUA não comentaram o caso.

Sob pressão americana, o Exército brasileiro ampliou a presença nas fronteiras nas mesmas semanas em que drones de vigilância dos EUA chegaram à América do Sul. Em abril, a Força anunciou operações integradas com o Peru.

A Força também reforçou o patrulhamento na fronteira com a Venezuela, com vistoria de embarcações e monitoramento de pontos de acesso.

O país recebeu cerca de 1,4 milhão de migrantes venezuelanos desde 2015. A mesma reportagem mostra que cerca de metade da madeira extraída no Brasil é ilegal, além de 28% do ouro extraído no país.

É esse cenário de fronteira porosa e extração ilegal que dá pano de fundo ao pedido americano por mais ação contra o crime transnacional.

O que acontece agora

O tema segue na agenda bilateral entre Brasília e Washington, com o combate ao crime transnacional entre os pontos discutidos na preparação da viagem do presidente Lula aos Estados Unidos.

O Itamaraty não informou uma data para o encontro. O Exército mantém as operações de reforço na fronteira com a Venezuela e o Peru.