O ex-comandante da Aeronáutica, tenente-brigadeiro Carlos de Almeida Baptista Júnior, lança em setembro o livro "Eu disse não – Uma trincheira antigolpista", com relatos sobre a pressão de Jair Bolsonaro sobre os militares após a derrota nas eleições de 2022.

Baptista Jr. foi comandante da FAB entre abril de 2021 e 2023 e prestou depoimento ao Supremo Tribunal Federal (STF) como testemunha, nunca como réu, na ação penal sobre a trama golpista.

Ele confirmou ao STF reuniões em que uma minuta golpista foi apresentada aos comandantes das Forças Armadas, e disse temer "uma ruptura entre tropas".

"Achei. As Forças Armadas são muito grandes... as pressões foram muito grandes", afirmou, sobre o risco de o golpe avançar.

Apesar disso, ele diz ter votado em Bolsonaro tanto em 2018 quanto em 2022.

Em 2018, segundo ele, "achava que a gente estava precisando de um banho de liberalismo". Em 2022, a justificativa foi outra. Ele via na anulação das condenações de Lula "uma quebra do Estado democrático de Direito".

Bolsonaro, segundo o relato de Baptista Jr. no livro, teria dito a ele após a derrota eleitoral: "BJ, eu já te dei dois cartões amarelos".

Baptista Jr. também disse à Polícia Federal ter sido pressionado pela deputada Carla Zambelli (PL-SP), em dezembro de 2022, durante uma formatura da FAB em Pirassununga (SP).

Segundo ele, a deputada disse: "Brigadeiro, o senhor não pode deixar o Presidente Bolsonaro na mão".

Zambelli nega ter pedido apoio a um golpe de Estado.

Bolsonaro foi condenado em setembro de 2025 a 27 anos e 3 meses de prisão pela trama golpista, em decisão da 1ª Turma do STF que rejeitou os recursos da defesa. Ele perdeu os direitos políticos.

O depoimento de Baptista Jr. ajudou a sustentar essa condenação. Mesmo assim, ele reconhece ter votado duas vezes no mesmo político cujo plano de golpe já testemunhava por dentro.

O que diferencia quem testemunha de quem responde

Baptista Jr. relatou reuniões, minutas e pressões que ajudaram a condenar Bolsonaro. Ainda assim, ele nunca foi denunciado, porque sua função no processo foi a de testemunha, não de réu.

O livro levanta uma pergunta que o processo penal não respondeu. Até que ponto conhecer o plano e ficar em silêncio por anos, inclusive nas urnas, deveria ter consequência diferente de participar dele?