O El Niño deve atingir intensidade muito forte na primavera e no verão de 2026/2027, com mais de 90% de probabilidade, segundo boletim do Simepar. O fenômeno já eleva as chuvas no Paraná e preocupa produtores de trigo e cevada, que temem perder qualidade e preço na colheita entre outubro e dezembro.

Os sinais já aparecem nos dados. Em julho, uma das áreas mais monitoradas do Oceano Pacífico registrou temperatura 1,4°C acima da média. Das 45 estações meteorológicas do Simepar com mais de cinco anos de operação, apenas 4 tiveram chuva abaixo da média no mês.

Em Palmas, no Sudoeste do estado, choveram 311 milímetros em julho, o maior volume para o mês desde a instalação da estação meteorológica no município, há 28 anos.

As regiões Oeste, Sudoeste e Centro-Sul do Paraná devem concentrar os maiores volumes de chuva daqui para frente. O Simepar prevê mais tempestades, enchentes, enxurradas e maior incidência de doenças fúngicas nas lavouras.

O medo dos produtores de trigo e cevada

"Em anos de El Niño, a expectativa de safras é que fiquem abaixo da média. É um período complexo", diz Roberto Martins, da cooperativa Capal, que reúne produtores da região de Arapoti e Jaguariaíva.

Ali, o produtor Thomas Salomons colheu, na safra anterior, cevada a 5 mil kg por hectare e trigo a 4,5 mil kg por hectare, os dois acima da média estadual (4,4 mil e 3,3 mil, respectivamente).

É esse tipo de resultado que a chuva em excesso na colheita, entre outubro e dezembro, ameaça repetir.

Nem todo produtor vê só risco. Marinus Hagen Neto, que cultiva 300 hectares na mesma região e colheu soja recorde de 6 mil kg por hectare na safra anterior, pondera: "Se as chuvas ocorrerem de maneira equilibrada, pode ser benéfico para as culturas de verão".

A Embrapa reforça o alerta técnico. Segundo a estatal, anos de El Niño aumentam a pressão de doenças como podridão radicular de fitóftora, mofo-branco e ferrugem-asiática na soja, sobretudo quando a alta umidade se combina com pouca insolação.

No pano de fundo está uma safra que já é grande. O Paraná deve fechar o ciclo 2025/26 com 47,3 milhões de toneladas de grãos, segundo boletim de julho do Departamento de Economia Rural (Deral), da Secretaria de Agricultura e do Abastecimento (Seab).

Duas safras, dois riscos opostos

O mesmo El Niño que ameaça a colheita de trigo e cevada, concentrada entre outubro e dezembro, é o que pode favorecer a semeadura da soja de verão, que começa nesse mesmo período.

Para o produtor paranaense, a pergunta não é só "quanto vai chover", mas "chove quando eu colho, ou quando eu planto".