O governo dos Estados Unidos acusou o Brasil de "falhar em confrontar" o PCC e o Comando Vermelho, em documento enviado ao Congresso americano nesta terça-feira (15). O texto chama as facções de "hub" global de cocaína e cobra medidas "agressivas" do Brasil.

A Casa Branca informou que as organizações "representam uma ameaça crescente à paz e segurança mundial" e que o governo brasileiro precisa agir "com urgência" para derrotá-las. O documento é a determinação presidencial anual sobre produção de drogas e combate ao narcotráfico.

Apesar da crítica nominal, o Brasil não consta na lista oficial de 23 grandes produtores ou rotas de droga, que inclui México, Colômbia, Venezuela, Peru, Bolívia e Equador.

Também não está na categoria de governos que "falharam de forma demonstrável", reservada a Afeganistão, Bolívia, Mianmar e Colômbia. É uma escalada em relação ao relatório de 2025, quando o Brasil não havia sido citado.

A Venezuela, por sua vez, foi retirada da lista de não cumpridores, mudança que os EUA atribuem à "cooperação com o governo interino" venezuelano.

O relatório chega em meio a outra frente de tensão bilateral: Brasil e Estados Unidos marcaram, no dia anterior, a primeira reunião presencial sobre o tarifaço imposto por Washington a produtos brasileiros.

A publicação também vem um dia depois de a TV Sim Brasil mostrar que a crise diplomática já levava os EUA a segurar vistos de agentes da Polícia Federal.

É também o mesmo dia em que a PF bloqueou R$ 508 milhões em bens de facções, na Operação Força Integrada IV.

Nesta terça (15), o presidente Lula também marcou para sexta-feira o lançamento de um plano contra facções no Rio, medida que antecede em poucos dias a publicação do relatório americano.

A crítica não é nova. Em 28 de maio, o governo americano classificou o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas. Em 6 de julho, o Itamaraty enviou à Câmara dos Deputados um documento assinado pelo chanceler Mauro Vieira sobre essa decisão.

"O arcabouço jurídico antiterrorista norte-americano confere uma ampla margem de interpretação e discricionariedade às suas agências de segurança", disse Vieira, no documento. O texto apontava o "perigo do uso da força militar dos EUA contra o território brasileiro" como consequência possível da classificação.

A crítica nominal, mesmo fora das listas oficiais, mantém viva a base jurídica que o Itamaraty já via como risco de ação unilateral americana em solo brasileiro.

Até a apuração desta reportagem, o governo brasileiro não havia divulgado resposta oficial ao relatório enviado ao Congresso dos EUA.

O ponto em aberto

O Brasil não está nas listas oficiais de países que falharam no combate às drogas, mas recebeu crítica nominal fora delas, formato que a diplomacia brasileira já tratava como risco antes deste relatório.

Em julho, o Itamaraty alertou o Congresso sobre o perigo de ação militar dos EUA a partir da classificação do PCC e do Comando Vermelho. Falta saber se a crítica de 15 de setembro abre caminho para medidas concretas ou permanece só retórica diplomática.