O governo da Venezuela e a oposição estão perto de fechar acordo para transferir as reservas de ouro do banco central, avaliadas em cerca de US$ 4 bilhões, do Banco da Inglaterra para o Federal Reserve de Nova York, diz o Financial Times.

Pela proposta em discussão, o governo interino liderado por Delcy Rodríguez obteria o controle legal sobre o ouro, mas sem autorização para vendê-lo imediatamente.

As reservas poderiam servir como garantia para empréstimos destinados a financiar gastos públicos e a reconstrução do país após os terremotos que atingiram a Venezuela em junho.

Uma disputa de sete anos em tribunais britânicos

O impasse começou em 2019, quando Estados Unidos, Reino Unido e outros países reconheceram Juan Guaidó, então presidente da Assembleia Nacional, como chefe de Estado da Venezuela. Desde então, a oposição reivindica as 31 toneladas de ouro guardadas em Londres.

A disputa chegou à Suprema Corte do Reino Unido.

Em julho, Delcy Rodríguez enviou carta ao rei Charles III pedindo a liberação do ouro, citando os custos da reconstrução após os terremotos que deixaram milhares de mortos e desabrigados.

Ela também conversou com a diretora do FMI, Kristalina Georgieva, sobre a liberação de outros recursos venezuelanos retidos no Fundo.

Por que o acordo acontece agora

A possível transferência é mais um passo na reaproximação internacional com a Venezuela. Depois da operação conduzida pelos Estados Unidos que resultou na prisão do então presidente Nicolás Maduro, em janeiro, Washington afrouxou parte das sanções econômicas impostas ao país.

Os EUA também fecharam um acordo de 100 anos sobre o petróleo venezuelano na semana passada. Em abril, o Fundo Monetário Internacional já havia retomado relações oficiais com a Venezuela após sete anos, permitindo ao governo em Caracas acessar recursos mantidos junto à instituição.

O Financial Times ressalva que as negociações sobre o ouro ainda não foram finalizadas e que detalhes técnicos permanecem em discussão. O Federal Reserve de Nova York, o Banco da Inglaterra e o Ministério das Relações Exteriores britânico não comentaram o caso.

O ponto em aberto

O acordo dá à Venezuela o controle legal do ouro, mas não a liberdade de vendê-lo.

A pergunta que fica é o que muda, na prática, para um país que segue sem poder usar livremente sua própria reserva. Falta saber também se a garantia via empréstimo vai priorizar a reconstrução das áreas atingidas pelos terremotos.