Os Estados Unidos voltaram a acusar o Brasil de falhar no combate ao Primeiro Comando da Capital (PCC) e ao Comando Vermelho (CV), em relatório enviado ao Congresso nesta terça (15). O procurador Márcio Christino chamou a declaração de tentativa de ampliar influência americana.
Segundo o Departamento de Estado dos EUA, o documento é o relatório anual que a Casa Branca envia ao Legislativo americano com panorama do tráfico de drogas no mundo. O Brasil não entrou nas listas formais de rotas ou de grandes produtores.
Ainda assim, o texto, assinado por Trump, dedica um trecho ao país governado por Lula (PT). O relatório afirma que o governo brasileiro "falhou em confrontar" o PCC e o Comando Vermelho, mesmo com outros países tomando "medidas corajosas" contra o narcotráfico.
A palavra certa é especulação. É o melhor termo para definir isso.
A frase é de Christino, ex-integrante do Grupo de Atuação Especial no Combate ao Crime Organizado (Gaeco). Para ele, a crítica tem motivação política, não técnica.
O diretor de operações e inteligência da Secretaria Nacional de Segurança Pública, Anchieta Nery, foi na mesma direção. Para ele, classificar as facções como terroristas é pressão para alinhar países da região ao governo americano.
Nery cita o México como outro caso do mesmo padrão e questiona por que a Colômbia, apontada como produtora de cocaína há décadas, nunca recebeu a mesma cobrança dos EUA.
"É de conhecimento público que nós não somos um país produtor de cocaína, como é o caso de países andinos", disse Nery, no 20º Encontro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. "E aí, os Estados Unidos falhou nesse trabalho em conjunto com a Colômbia?", questionou.
O contraste chamou atenção porque o mesmo relatório elogia a Colômbia, que Nery cita como país que seguiu produzindo cocaína mesmo após apoio dos EUA, ao lado de Venezuela e Bolívia.
Nery disse ainda que a declaração é assunto diplomático, a cargo do Ministério das Relações Exteriores, não da área de segurança pública.
O que muda com a designação de organização terrorista?
PCC e CV foram incluídos nas listas de Terroristas Globais Especialmente Designados (SDGT) e de Organizações Terroristas Estrangeiras (FTOs) em maio deste ano. Na prática, a medida afeta as atividades financeiras dos grupos e de pessoas ligadas a eles.
Autoridades brasileiras temem que a designação abra brecha para intervenção dos EUA sob justificativa de combate ao "narcoterrorismo", como ocorreu na captura do ex-presidente venezuelano Nicolás Maduro por forças americanas.
Meses depois da decisão de Washington sobre PCC e CV, o chanceler brasileiro, Mauro Vieira, chegou a admitir o risco de uma ação militar dos EUA no Brasil.
A crítica repete o teor da acusação que Trump já havia feito ao Brasil e chega dias depois de o governo americano explicar por que o país não entrou na lista formal de produtores.
O que acontece agora
Lula deve responder às críticas em discurso na 81ª Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York, na terça-feira (22/9).
Segundo o secretário de Assuntos Multilaterais Políticos do Itamaraty, Carlos Márcio Bicalho Cozendey, o presidente deve citar os esforços do Brasil contra as facções, com cooperações internacionais e acordos com os EUA. O Itamaraty diz que a fala ainda pode mudar.


























