Às vésperas do primeiro turno das eleições presidenciais, o presidente Lula (PT) deve defender a não interferência estrangeira em assuntos internos de outros países no discurso de abertura da 81ª Assembleia Geral da ONU, marcado para a terça-feira (22/9), em Nova York.

Mais cedo nesta quarta (16/9), em evento com pastores evangélicos, Lula revelou ter alertado o próprio Trump, por telefone, para que Washington não tente intervir nas eleições brasileiras. A fala na ONU, nesse contexto, pode soar como novo recado ao presidente americano.

Segundo o secretário de Assuntos Multilaterais Políticos do Itamaraty, embaixador Carlos Márcio Bicalho Cozendey, a expectativa é que o petista também faça forte defesa do multilateralismo, diante do cenário de escalada de conflitos internacionais.

Defender, como ele tem defendido, negociações de paz nas diversas esferas, o direito internacional humanitário e, sem dúvida, da não interferência em ações internas de outros países.

A frase é de Cozendey, em briefing no Palácio Itamaraty. Segundo ele, o discurso ainda é definido pela Presidência e pode mudar até o último momento.

Lula também deve usar o discurso para defender a cooperação internacional contra o crime organizado, incluindo acordos bilaterais com países vizinhos e com os próprios Estados Unidos.

A fala vem dias depois de Trump acusar o governo brasileiro de falhar no combate ao PCC e ao CV. A delegação brasileira levará ainda a negociação preliminar de um protocolo para crimes ambientais.

Trump disse na semana passada manter uma "boa relação" com o Brasil e afirmou ter ajudado a eleger líderes na América Latina diante do avanço da direita, sem citar Lula diretamente.

O bate-boca à distância ocorre em meio a outras tensões entre os dois governos. Lula já reforçou o recado a Trump sobre a eleição no mesmo evento com pastores.

Na mesma linha de ataque ao campo adversário, Lula acusou o senador Flávio Bolsonaro (PL) de ter recebido R$ 130 milhões de Vorcaro para financiar um filme sobre o pai. Trata-se de acusação feita pelo presidente, sem apresentação pública de comprovação, e a TV Sim não obteve manifestação da defesa do senador sobre o tema até a publicação desta matéria. O espaço para resposta segue aberto.

Caso não seja reeleito em outubro, este deve ser o último discurso de Lula, de 80 anos, na ONU. O Brasil tradicionalmente abre a Assembleia Geral, realizada todo ano em Nova York.

O que acontece agora

Lula chega a Nova York no domingo (20/9) e retorna ao Brasil já na terça (22/9), mesmo dia do discurso. Antes disso, a segunda-feira (21/9) fica reservada a reuniões bilaterais, incluindo um encontro com o secretário-geral da ONU, António Guterres.

Os dois devem discutir a reforma do Conselho de Segurança da ONU. Há ainda possibilidade de um encontro com o prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, opositor de Trump.

Segundo o Itamaraty, não há expectativa de reunião bilateral entre Lula e Trump, mas os dois podem se cruzar informalmente nos bastidores da abertura, como ocorreu em 2025, quando o americano declarou que os dois tiveram uma "excelente química".

Lula viaja com comitiva menor que em anos anteriores, formada pelos ministros Esther Dweck (Gestão e Inovação em Serviços Públicos), Luiz Eloy Terena (Povos Indígenas) e Rachel Barros (Igualdade Racial). O chanceler Mauro Vieira assume as agendas restantes após o retorno do presidente.