O Brasil deve colher 5,8 milhões de toneladas de trigo na safra 2026/27, queda de 26,2% em relação às 7,87 milhões de toneladas do ciclo anterior, segundo a Conab. Para suprir o consumo interno, as importações devem chegar a 7,103 milhões de toneladas, o maior volume desde 2006/07.

A área plantada recuou 20,4%, de 2,45 milhões para 1,95 milhão de hectares. A produtividade média também deve cair, em 7,2%, para 2.986 quilos por hectare.

Segundo a Conab, o desestímulo ao plantio está ligado aos preços recebidos pelos produtores nas últimas safras, ao custo de produção e à concorrência do trigo importado.

Um fator climático também pesa. A estatal cita a perspectiva de um El Niño forte no momento do plantio no Rio Grande do Sul e no Paraná, os dois maiores produtores do país.

Por que o trigo argentino não resolve sozinho o problema

Os moinhos brasileiros costumam misturar trigo nacional com argentino para atingir o padrão de qualidade exigido pela indústria de panificação. A safra argentina 2025/26 é grande, perto de 30 milhões de toneladas, mas veio com teor de proteína e glúten mais baixos que o histórico.

Com a colheita brasileira menor e o trigo importado fora do padrão esperado, a mistura que sustentava a qualidade industrial fica mais difícil de montar.

A estimativa é que o país precise importar entre 8 e 10 milhões de toneladas para fechar as contas do ano-safra.

O trigo chega de fontes diferentes, a preços diferentes. No primeiro semestre de 2026, o Brasil já havia importado 2,8 milhões de toneladas, ante 3,6 milhões no mesmo período de 2025.

Do total, 170 mil toneladas vieram da Rússia. Em valor CIF por tonelada, a tonelada russa saiu a R$ 1.591, a argentina a R$ 1.463, a americana tipo soft a R$ 1.809 e a tipo hard a R$ 2.048.

O recorde que pode ser batido

A projeção de 7,103 milhões de toneladas importadas está a poucos passos do maior volume já registrado pelo Brasil, de 7,164 milhões de toneladas em 2006/07, no início da série histórica da Conab, iniciada em 2001/02.

Élcio Bento, analista da consultoria Safras & Mercado, é citado como fonte do cenário para o ano-safra 2026/27, que deve se estender até 2027, quando entra em jogo a próxima safra argentina.

O trigo argentino do novo ciclo só deve desembarcar no Brasil em dezembro.