O governo dos Estados Unidos acusou a JBS e a Marfrig de integrar um cartel que controla 85% do processamento de carne bovina no país. A acusação partiu do conselheiro da Casa Branca Peter Navarro, nesta terça-feira (11), em entrevista à Fox Business.
"Temos um cartel no processamento de carne bovina. É um cartel de quatro empresas que controla 85% de todo o processamento de carne", disse Navarro à Fox Business.
Além da JBS, o conselheiro citou a Cargill, a Tyson Foods e a National Beef, subsidiária americana controlada pela brasileira Marfrig (MBRF). Segundo Navarro, a parte brasileira do grupo maximiza preços no mercado global.
Uma investigação que já dura três meses
A denúncia de Navarro se soma a uma investigação antitruste aberta pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos em maio. O órgão apura se as quatro processadoras usaram poder de mercado para inflar artificialmente o preço da carne bovina.
O preço no atacado subiu quase 20% em um ano nos EUA, segundo o levantamento que embasa a investigação do DOJ.
A secretária de Agricultura americana, Brooke Rollins, foi além. Disse que a JBS tem "histórico documentado de corrupção internacional e atividades ilícitas" e citou suspeitas de conluio e manipulação de preços já investigadas anteriormente.
Procuradas, a JBS e a Marfrig informaram que não vão comentar a iniciativa da Casa Branca.
Dinheiro para quem denunciar
O governo Trump formalizou um programa de recompensa para quem fornecer informações contra a JBS e a National Beef. Quem denunciar pode receber entre 15% e 30% do valor de eventuais multas antitruste.
Sanções antitruste costumam somar centenas de milhões de dólares nos Estados Unidos. Na prática, o prêmio ao delator pode chegar a dezenas de milhões.
O mercado sentiu o golpe. As ações da JBS (JBSS3) e da Marfrig (MRFG3) estiveram entre as maiores quedas do Ibovespa no pregão seguinte ao anúncio, e todo o setor de proteínas fechou pressionado.
Em nota, o Itamaraty rebateu a acusação. Afirmou que a investigação americana não provou que as políticas brasileiras sejam "irracionais" ou "discriminatórias", nem que causem prejuízo ao comércio dos Estados Unidos.
O governo brasileiro disse que vai recorrer à Lei de Reciprocidade e ao sistema de solução de controvérsias da Organização Mundial do Comércio.
A disputa chega em um momento delicado para o setor. A carne bovina brasileira ficou isenta da tarifa de 50% que Trump aplicou a produtos do país a partir de 1º de agosto, junto com o café e o petróleo.
Nesta sexta-feira (14), o governo americano ampliou a pressão comercial sobre o Brasil por outra via. Incluiu o país em uma lista de nações apontadas como rota usada por empresas chinesas para driblar tarifas dos EUA, medida ligada ao tarifaço aplicado à China desde 2018.
O que ainda está em jogo
A investigação do Departamento de Justiça segue sem data para conclusão. A pergunta que fica é se a denúncia de Navarro avança para multa contra as empresas ou permanece só no discurso enquanto o Itamaraty prepara a resposta na OMC.














