O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva chega ao recesso do Congresso com a base parlamentar mais fragilizada do mandato. Levantamento da consultoria Ética Inteligência Política mostra que a taxa de apoio às pautas prioritárias do Palácio do Planalto caiu pela metade no primeiro semestre de 2026 em comparação com o mesmo período de 2025.
No Senado, a adesão às propostas do governo recuou de 75% para 38,5%. Na Câmara dos Deputados, o índice caiu de 58% para 38,1%. Os números refletem o distanciamento de partidos do chamado Centrão — MDB, PSD, União Brasil, PP e Republicanos — que compõem formalmente a base, mas passaram a votar cada vez mais conforme interesses próprios e o calendário eleitoral.
O dado mais contraditório do quadro é que a perda de apoio acontece justamente no ano em que o governo mais liberou recursos para os parlamentares. Até 4 de julho, foram pagos R$ 33,89 bilhões em emendas parlamentares, o maior valor da história para um período pré-eleitoral. Para analistas ouvidos no levantamento, o volume recorde de emendas ampliou a autonomia do Congresso em vez de comprar fidelidade: com mais dinheiro carimbado, deputados e senadores dependem menos da agenda do Executivo.
Pautas travadas antes do recesso
A dificuldade de articulação se traduziu em derrotas concretas. Das oito propostas consideradas prioritárias pelo Planalto para 2026, apenas duas haviam sido aprovadas até o início do recesso, em 18 de julho. Entre as que ficaram pelo caminho está a PEC que acaba com a escala 6x1 e reduz a jornada de trabalho, parada no Senado, além da PEC da Segurança Pública e dos projetos de regulação da inteligência artificial e dos mercados digitais.
Os parlamentares só retornam aos trabalhos em 10 de agosto, e a expectativa de aliados é de que a pressão sobre o Congresso seja retomada com mais força a partir daí. O cenário, porém, tende a ficar ainda mais complexo: com a eleição de outubro no horizonte, o posicionamento dos partidos passa a depender mais das alianças estaduais em construção do que das prioridades do governo.
Ano eleitoral pressiona a base
A fragilização da base ocorre em meio à disputa pela sucessão presidencial e à montagem de palanques nos estados, fatores que empurram siglas do Centrão para uma posição de maior independência. O recuo no apoio às votações é o retrato, no dia a dia do Legislativo, de uma governabilidade que se tornou mais cara e mais incerta a poucos meses das urnas.




