O governo do Paraguai convocou o embaixador do Brasil para receber uma nota oficial sobre declarações do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a respeito da Guerra do Paraguai. A convocação foi marcada para as 12 horas desta sexta-feira (31), segundo o chanceler paraguaio Rubén Ramírez Lezcano, e a entrega do documento será feita ao lado do vice-presidente da República, Pedro Alliana.

Ainda de acordo com Ramírez Lezcano, os dois chefes de Estado já haviam tratado do caso diretamente. "Os presidentes da República do Paraguai e da República Federativa do Brasil conversaram por telefone sobre este delicado assunto", afirmou o chanceler, em declaração divulgada nesta quinta-feira (30).

O que Lula disse

A crise começou em 24 de julho, quando Lula visitou a fábrica da Avibras, em Jacareí, no interior de São Paulo, e discursou em defesa de investimentos em defesa e do fortalecimento das Forças Armadas brasileiras. Na ocasião, segundo registro do Poder360, o presidente afirmou: "Nós gostamos de paz. Mas um belo dia o Paraguai resolveu invadir o Brasil. A Guerra do Paraguai custou 3 Orçamentos do Brasil na época. Quando você entra em guerra, você não fica perguntando se tem dinheiro ou não tem dinheiro".

O argumento do presidente, no evento, foi o de que o Brasil é um país pacífico, mas precisa de Forças Armadas equipadas e tecnologicamente preparadas para exercer poder de dissuasão. Em outro trecho da mesma fala, registrado pela Gazeta do Povo, Lula disse que o Paraguai "invadiu Corumbá e, ao mesmo tempo, invadiu o Uruguai e a Argentina", e que a guerra "durou cinco anos".

A Guerra do Paraguai, também chamada de Guerra da Tríplice Aliança, ocorreu entre 1864 e 1870 e envolveu Brasil, Paraguai, Argentina e Uruguai.

Repúdio no Congresso paraguaio

O primeiro a reagir publicamente foi o vice-presidente Pedro Alliana, na segunda-feira (27), pela rede social X. Ele afirmou que o conflito "deixou nosso país em ruínas" e o classificou como "um capítulo vergonhoso, orquestrado por meio de um tratado funesto". Alliana também pediu, como "gesto de fraternidade", a devolução do canhão "El Cristiano", armamento capturado pelo Brasil como troféu de guerra e hoje exposto no Museu Histórico Nacional, no Rio de Janeiro.

Na quarta-feira (29), o Senado paraguaio aprovou declaração para repudiar energicamente os comentários, a partir de moção apresentada pelo senador de oposição Eduardo Nakayama. No mesmo dia, a Câmara dos Deputados aprovou por maioria uma nota de repúdio, segundo a qual as falas de Lula "distorcem e minimizam a dimensão histórica da guerra, desconsiderando a complexidade das origens do conflito e o profundo sofrimento humano suportado pelo povo paraguaio".

O presidente da Câmara dos Deputados, Raúl Latorre, qualificou o conflito como "o maior genocídio do nosso continente" e criticou o fato de o presidente brasileiro ter tratado do tema "com demasiada leveza". Latorre também pediu que a chancelaria paraguaia intensifique as negociações para a devolução de troféus de guerra do país. O deputado de oposição Ignacio Iramain declarou que Lula "tem o direito de defender a segurança de seu país, mas não tem o direito de usar a tragédia paraguaia para justificar armas".