A Polícia Federal identificou 74 ligações telefônicas entre o senador Jaques Wagner (PT-BA) e o empresário Augusto Ferreira Lima, apontado como ex-sócio ligado ao Banco Master. Segundo o material investigativo que teve parte do sigilo levantada pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, as chamadas ocorreram entre 17 de novembro de 2023 e 25 de maio de 2025 e somam mais de 5 horas e 30 minutos de conversa.

Todas as chamadas foram atendidas, com durações que variaram de 50 segundos a quase 20 minutos. Para os investigadores, o volume de contatos ao longo de 555 dias demonstra um relacionamento frequente entre os dois investigados. A PF registrou ainda uma "clara e reiterada preferência" por chamadas de voz feitas pelo WhatsApp, em vez de mensagens escritas. As informações da apuração foram divulgadas pelo jornal Valor Econômico.

O que a investigação apura

A linha principal do inquérito é verificar se o senador recebeu vantagens indevidas para atuar em favor dos interesses do Banco Master em matérias que tramitavam no Senado. Um dos pontos examinados é uma proposta de emenda que ampliaria a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC).

Entre os benefícios sob apuração estão um apartamento de R$ 2,45 milhões em um empreendimento de luxo no bairro do Horto Florestal, em Salvador, cuja operação teria sido intermediada por Augusto Lima; R$ 3,5 milhões destinados a empresas ligadas a familiares do senador; o uso de aviões e helicópteros privados em pelo menos quatro ocasiões; e um lote de ingressos de um show da cantora Taylor Swift, no valor de R$ 63 mil, para a filha e a neta do parlamentar.

A apuração corre no âmbito da Operação Compliance Zero, deflagrada pela PF em 18 de novembro de 2025. No curso das diligências, Mendonça autorizou o monitoramento por dez dias dos telefones celulares de Wagner e de Lima. A apuração está em fase de inquérito e o senador nega as acusações.

A defesa do senador

Wagner nega que tenha havido qualquer favorecimento à instituição financeira. Em conversa com jornalistas na Bahia nesta sexta-feira (31), afirmou estar "muito tranquilo": "Eu tenho certeza que vou provar a minha inocência". O senador evitou entrar no mérito do inquérito por recomendação de sua defesa. "Por orientação dele, ele pede para eu não falar. Tudo que você fala, se você está sendo investigado, é direito do senhor ficar em silêncio", disse.

Sobre o imóvel, o senador admitiu ter pedido a Augusto Lima que comprasse o apartamento, mas afirmou que pretendia pagar por ele depois. Segundo a defesa, o acordo envolvia a permuta do imóvel por lotes do empreendimento e um adiantamento de R$ 2 milhões, com escritura pública registrada em maio de 2026, o que preservaria a natureza de permuta da operação.

Em junho de 2026, quando classificou a ação como uma "patacoada", Wagner já havia dito: "O que a Polícia Federal tem que comprovar, e não vai, é a relação de troca. Eles inventaram que trabalhei pelo Banco Master. E eu nunca trabalhei a favor, trabalhei contra". Na ocasião, afirmou desconhecer valores pagos à empresa de sua nora.

O senador relatou ainda ter oferecido ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva o cargo de líder do governo no Senado para evitar desgaste político — "Entreguei o cargo a ele para não contaminar, para não perturbar" —, mas disse que Lula recusou e manifestou apoio público durante agenda em Alagoinhas, na Bahia.