A China já importou 90% da cota de carne bovina brasileira liberada para 2026, segundo o Ministério do Comércio chinês (Mofcom). Restam 110,6 mil toneladas até o limite de 1,106 milhão de toneladas. Se o teto for ultrapassado, a tarifa sobre a carne do Brasil sobe de 12% para 67%, com sobretaxa de 55% a partir do terceiro dia seguinte.

Em comunicado, o Mofcom informou que "a carne bovina importada do Brasil sob as medidas de salvaguarda atingiu 90% da quantidade estipulada", com base no Anúncio nº 87 de 2025, que rege as importações chinesas de carne bovina de todos os países fornecedores.

A cota já estava em 80% em 22 de julho, segundo o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa). Em três semanas, avançou mais dez pontos percentuais.

Por que o teto chega em agosto, e não em dezembro?

O limite de 1,106 milhão de toneladas fixado para 2026 é cerca de 35% menor do que o volume que o Brasil embarcou para a China em todo o ano de 2025, quando as vendas somaram 1,70 milhão de toneladas.

Com uma cota menor e a demanda mantida, o teto chegou quatro meses antes do fim do ano.

O Mapa reforça que a medida não é uma taxação específica contra o Brasil. "É uma medida específica de salvaguarda para todas as importações de carne bovina da China que excedam a cota estabelecida para cada país", diz a nota do ministério.

O texto também desmentiu boatos de redes sociais sobre um suposto novo imposto direcionado à carne brasileira.

Representantes da Embaixada da China se reuniram com a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) em 28 de julho, em Brasília. Segundo o encontro, a China decidiu, por enquanto, não rever o limite de importação para a carne brasileira.

A Austrália já havia esgotado sua própria cota. Uruguai e Argentina ainda tinham volume disponível na época.

Qual o efeito para quem produz no Brasil?

Segundo a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), a China responde por cerca de 40% a 45% de todo o volume de carne bovina exportado pelo Brasil.

Sem o principal comprador no mercado pelo resto do ano, a entidade avalia que a demanda global pela proteína brasileira deve cair e pressionar para baixo os preços recebidos pela indústria exportadora no segundo semestre.

O impacto já aparece nos números de julho, o pior mês do ano. Foram 85,7 mil toneladas embarcadas, 47% a menos que em junho. O faturamento caiu de US$ 1,08 bilhão para US$ 537,8 milhões no mesmo intervalo, queda de 50,3%.

Grandes frigoríficos já ajustaram a produção. A JBS concedeu férias coletivas em julho em duas unidades no Mato Grosso.

A saída tem sido buscar outros compradores. Entre janeiro e julho, as vendas de carne bovina para o Chile cresceram mais de 50%; para os Estados Unidos, quase 10%. Nenhum mercado, sozinho, tem hoje volume para substituir a China.

No interior paulista, o preço ainda não sentiu o efeito. No início de agosto, o boi gordo sem padrão de exportação era negociado a R$ 350 por arroba, e o chamado "boi China" (categoria negociada conforme o padrão do mercado chinês) estava em R$ 352.

As vendas de agosto seguem 18% abaixo da média diária do mesmo mês de 2025.

Quanto tempo os preços resistem à saída da China

O boi gordo ainda não caiu porque o efeito é de médio prazo. A própria Abiec projeta pressão sobre os preços só a partir do segundo semestre, e a cota deve seguir esgotada até dezembro.

Falta saber se a diversificação para Chile e Estados Unidos, hoje muito menor que o mercado chinês, cresce rápido o bastante para segurar o preço pago ao produtor antes que a pressão chegue à arroba.