O embaixador Celso Amorim, assessor especial da Presidência para Assuntos Internacionais, defendeu nesta segunda-feira (17) que o governo acelere as contramedidas contra o tarifaço dos Estados Unidos. Em entrevista ao jornal Valor, ele disse que o Brasil já negociou por quase um ano e meio antes de acionar a Lei da Reciprocidade Econômica.

"Passou um ano, quase um ano e meio consultando. É claro que a gente se preocupa muito com os setores brasileiros prejudicados, mas é preciso se adaptar a essa realidade nova", disse Amorim ao Valor.

O processo formal para aplicar a Lei da Reciprocidade Econômica foi aberto pelo governo em 13 de agosto. A lei foi sancionada por Lula em 2025, após aprovação do Congresso.

Ela cria instrumentos para o Brasil responder a medidas de outros países que prejudiquem sua competitividade internacional. A etapa atual é de consulta. Não significa que o Brasil já decidiu aplicar contramedidas.

Segundo Amorim, o objetivo não é punir os Estados Unidos, mas pressionar o governo de Donald Trump a reduzir ou eliminar as tarifas.

"Para que você obtenha alguma coisa na negociação, você tem que partir do princípio de que ela pode ir até o final", afirmou.

O tarifaço em vigor chega a 37,5% sobre madeira, açúcar, papel e produtos químicos, e recai integralmente sobre tabaco, armas e munições. Café, combustíveis e aeronaves seguem isentos. Das exportações de carne, 90,5% escaparam da sobretaxa.

O que a CNI recomenda

Nem todo o setor produtivo defende acelerar o embate. A Confederação Nacional da Indústria (CNI) pede cautela desde que o processo começou a ser discutido.

"Precisamos de todas as formas buscar manter a firme e propositiva relação de mais de 200 anos entre Brasil e Estados Unidos", disse o presidente da entidade, Ricardo Alban.

Alban já levou mais de 100 líderes empresariais a Washington para negociar diretamente com autoridades e empresários americanos.

Para a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), a tributação total sobre os produtos ainda taxados pode chegar a 76%, o que compromete a viabilidade econômica das vendas aos Estados Unidos.

O tarifaço também virou munição política interna. Lula acusou a família do ex-presidente Jair Bolsonaro de não se importar com os prejuízos que a medida causa à indústria, à agricultura, aos serviços e aos salários no país.

O presidente ligou a taxação à articulação dos filhos de Bolsonaro com o governo Trump.

A Câmara de Comércio Exterior (Camex) tem 30 dias para concluir o exame de admissibilidade do pedido de reciprocidade. Só depois desse prazo o governo poderá avançar para a fase seguinte, que pode incluir a aplicação de tarifas sobre produtos importados dos Estados Unidos.