O Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) acionou neste domingo (23) o plano emergencial contra excesso de energia, pedindo a distribuidoras que reduzam geração solar e eólica para evitar instabilidade na rede. É a resposta a um problema que cresce a cada ano. Domingo de sol virou risco para o sistema elétrico brasileiro.

"A pior desgraça que temos hoje é um domingo de sol. Se for um domingo frio de sol, pior. E se for um domingo de sol no meio de um feriado prolongado, pior ainda", diz Donato da Silva Filho, presidente da Volt Robotics.

O plano foi usado pela primeira vez em 7 de junho, no feriado prolongado de Corpus Christi. Na ocasião, o ONS cortou geração solar e eólica pela primeira vez, pedindo a 12 distribuidoras o gerenciamento de 1.000 megawatts entre 10h e 14h.

O problema é o excesso de sol combinado com pouca gente em casa consumindo energia. Painéis solares espalhados pelo país geram no mesmo horário em que fábricas, comércios e escolas estão fechados, sobrando eletricidade que a rede não consegue escoar com segurança.

Por que isso piora todo ano

Levantamento da consultoria Volt Robotics mostra que os dias de estresse crítico saltaram de 1 em 2024 para 16 em 2025. Entre janeiro e julho de 2026 já foram 6 dias, o dobro dos 3 registrados no mesmo período do ano anterior.

O fenômeno é efeito colateral do próprio sucesso da energia solar. Painéis e turbinas foram instalados mais rápido do que a rede conseguiu se preparar para administrar os picos de geração.

Especialistas chamam o padrão de "curva do pato". O consumo cai bruscamente à tarde, quando o sol está mais forte. E sobe rápido no início da noite, quando as famílias voltam para casa e o sol já não gera energia.

"Qualquer abalo na rede, qualquer coisinha, é um colapso. É por isso que a situação é perigosa todos os finais de semana, aos domingos, especialmente aos feriados", afirma Edvaldo Santana, ex-diretor da Aneel.

O ONS mantém um alerta semanal por cores para prever o risco: verde indica baixa probabilidade de acionar o plano, amarelo é atenção, e vermelho sinaliza alta chance de corte de geração.

Hoje, o plano emergencial consegue gerenciar entre 1 GW e 2 GW, de um total de até 20 GW de corte que poderiam ser necessários em um cenário mais grave. A margem de segurança ainda é estreita.

Em 20 de agosto, o diretor-geral do ONS, Marcio Rea, disse que a chance de acionar o plano no 2º semestre é "ligeiramente maior". No Dia dos Pais (9/8), o órgão chegou a cogitar a medida, mas descartou depois.

O impacto não fica só na rede. A instabilidade na oferta de energia é um dos fatores que também pressionam a conta de luz, e famílias e empresas têm buscado gerar a própria energia solar para se proteger da alta.

O ponto em aberto

Segundo Edvaldo Santana, o equilíbrio entre geração e consumo só deve chegar por volta de 2042, quando o consumo passar a crescer mais rápido. Até lá, fica a pergunta se a capacidade de gerenciar cortes vai crescer no mesmo ritmo dos painéis solares.