O candidato ao governo de Minas Gerais Gabriel Azevedo (MDB) protocolou na sexta-feira (4) uma notícia-crime contra Ben Mendes (Missão) na 332ª Zona Eleitoral de Belo Horizonte. O documento pede o enquadramento do adversário por difamação e injúria eleitoral, o envio dos autos ao Ministério Público Eleitoral e, como prova, a gravação integral do debate de 2 de setembro.

Essa gravação é nossa. O debate foi produzido pela TV Sim Brasil em consórcio com a Rede TMC, nos estúdios da Avenida do Contorno, em Belo Horizonte, e transmitido ao vivo por rádio, TV e internet. A TV Sim Brasil registra aqui essa condição: a emissora não é parte na ação, mas é a produtora do material que a Justiça Eleitoral poderá examinar.

Por isso esta reportagem faz o que nenhum documento processual faz: reconstitui, com marcação de tempo da própria transmissão, o que aconteceu no palco.

O confronto, minuto a minuto

A primeira acusação partiu de Ben Mendes, aos 42 minutos de transmissão, quando ele explicava por que não comparecera a um debate anterior. "Gabriel, nós devemos ser responsáveis. Fake news não pode acontecer. Você, como um candidato ao governo, não pode induzir o público em erro", disse.

Gabriel respondeu cobrando o plano de governo do adversário, que segundo ele não estava disponível para consulta pública no sistema do Tribunal Superior Eleitoral. Na tréplica, aos 44 minutos, veio a frase que a notícia-crime cita: "Que que tá acontecendo com você, Gabriel? Você veio aqui para espalhar fake news. A segunda em menos de 3 minutos." Ben Mendes afirmou que seu plano fora entregue ao TSE em 14 de agosto.

Aos 52 minutos, Gabriel pediu direito de resposta pela primeira vez. A banca de advogados que acompanhava a transmissão negou.

O direito de resposta que mudou o rumo

Aos 1h04, um segundo pedido foi concedido pela mesma banca. Foi nesse um minuto de fala que o tema da violência contra mulheres entrou no debate, e ele entrou pela boca de Gabriel Azevedo.

Depois de sustentar que o adversário faltara ao debate da TV Horizonte e que o plano de governo estava "em procedimento", o emedebista emendou: "o senhor não me acuse de fake news, porque eu não sou uma pessoa que desrespeita as outras. Aliás, não falo de fome de quem tá passando na rua para fazer corte para a internet e também não agrido mulheres".

Dez minutos depois, aos 1h14, ao responder uma pergunta sobre os 177 feminicídios registrados em Minas em 2025, Ben Mendes devolveu o golpe e fez um desafio: "Não vai fazer ilações dizendo acerca de violência contra a mulher, de agredir mulher. Seja homem e prove. Se tiver algum candidato aqui nesta tribuna que já tenha encostado a mão em uma mulher, você fala quem é."

É esse desafio, feito no ar e diante de câmera, que a notícia-crime protocolada dois dias depois vem responder. O que o adversário pediu no palco, Gabriel levou em papel para a Justiça Eleitoral.

O assunto ainda voltaria duas vezes. Aos 2h20, ao perguntar a Flávio Roscoe (PL) sobre o papel dos homens no combate ao feminicídio, Gabriel abriu com "nunca mostraram nem eu, nem você aos tapas com a mulher". E aos 2h40, num terceiro direito de resposta concedido, veio a fala que circulou nas redes, em que ele sugeriu ao adversário "se assumir". Ben Mendes pediu resposta à resposta e ouviu da banca que a regra não permite: "não tem direito de resposta sobre direito de resposta".

O que diz o documento anexado

Ao acionar a Justiça, Gabriel juntou um relatório da Polícia Civil com 14 registros policiais envolvendo Ben Mendes, distribuídos por seis municípios mineiros e por um intervalo que vai de 2015 a 2026. Segundo a defesa do emedebista, quatro deles apuram crimes contra a honra em cerca de sete anos, o que sustentaria a tese de que o ataque no debate não foi "acidente", e sim "método".

Entre os episódios citados estão uma prisão em flagrante em fevereiro de 2015, em Itambacuri, por desacato, em que Mendes teria se apresentado indevidamente como advogado, com soltura mediante fiança e transação penal firmada em 2017; um procedimento aberto em dezembro de 2024 com duas vítimas mulheres, enquadrado como intimidação sistemática e violência psicológica, que resultou em indiciamento em fevereiro de 2026; e um caso em Betim, em março de 2026, envolvendo a gerente de uma loja de material de construção.

É preciso dizer com todas as letras o que esses papéis são e o que não são. Boletim de ocorrência, inquérito e indiciamento são etapas de apuração, não veredicto. Nenhum dos registros apresentados corresponde a condenação, e a existência de um número alto de ocorrências não substitui decisão judicial.

O que diz Ben Mendes

A campanha do candidato do Missão nega as acusações. Em resposta pública, afirmou que Gabriel Azevedo "merece o apelido" de "Gabriel Mentirinha", recebido no próprio debate, e sustentou que uma imagem divulgada pelo adversário foi produzida por inteligência artificial. Mendes também questionou por que um candidato que classificou como "irrelevante" mereceria um vídeo de quase 30 minutos gravado por ele nas redes sociais.

No debate, o candidato já havia dito que só estava ali porque "a TMC decidiu comprar a briga", e afirmou existir um acordo entre adversários para mantê-lo fora dos debates. Sobre feminicídio, defendeu penas mais duras para agressores e redes de apoio a mulheres em igrejas, escolas e universidades.

Um detalhe que só a íntegra mostra

Nas considerações finais, aos 2h35, Ben Mendes se apresentou ao eleitor mineiro com a própria biografia: "sou cristão, sou presbiteriano, sou casado, pai de três filhos, tenho 38 anos, sou jornalista, sou advogado, sou interno de medicina".

Onze anos antes, segundo o relatório anexado por Gabriel, um dos registros de 2015 tratava exatamente de apresentação indevida como advogado. São fatos de naturezas diferentes e separados por mais de uma década, e esta reportagem não confirmou de forma independente a situação atual do candidato na Ordem dos Advogados do Brasil. O contraste, porém, está nos dois documentos que a Justiça Eleitoral terá diante de si: a gravação e o relatório.

O que acontece agora

Cabe à 332ª Zona Eleitoral decidir sobre o pedido de requisição da gravação e sobre o encaminhamento ao Ministério Público Eleitoral, a quem compete avaliar se há elementos para denúncia ou se o caso demanda novas diligências. A campanha eleitoral segue, e a disputa pelo Palácio Tiradentes tem Cleitinho na liderança das pesquisas, com Gabriel Azevedo e Ben Mendes na faixa de 4% a 4,7%.

O debate de 2 de setembro rendeu confronto em vários blocos, da dívida de R$ 179,3 bilhões com a União às propostas de segurança pública, passando pelo bloco sobre feminicídio e pela primeira troca de acusações de fake news. Quatro candidatos não compareceram.

A íntegra da transmissão segue disponível para consulta pública, com janela de Libras, legenda oculta e audiodescrição, como exige a Resolução 23.610/2019 do TSE.

As campanhas de Gabriel Azevedo e de Ben Mendes têm espaço aberto nesta reportagem para manifestação, que será incorporada ao texto assim que enviada.