O PIB brasileiro cresceu 0,5% no segundo trimestre, mas o resultado reacendeu um alerta que economistas já vinham fazendo antes do número sair. Com a dívida bruta em 82,5% do PIB, o maior patamar em cinco anos, o crescimento morno soma-se a dois outros riscos que o próximo presidente vai herdar em 2027.

O crescimento trimestral veio acima da projeção de 0,3% do Banco Safra, mas o acumulado no semestre, de 1,9%, confirma a desaceleração gradual da economia. O consumo das famílias recuou 0,4% no trimestre, mesmo com a taxa de investimento em 16,1% do PIB.

O tamanho da dívida já havia sido tema de matéria própria na véspera.

Os três riscos apontados por economistas

O primeiro é o endividamento de famílias e empresas. Alex Agostini, da Austin Rating, diz que os juros elevados "tem pesado sobre o consumo, afetando serviços e indústria". Flávio Serrano, do Banco BMG, atribui o mesmo efeito à Selic, que fechou o trimestre em 14,25%.

O segundo risco é fiscal. Agostini descreve um orçamento sem margem: "nós estamos com aumento muito forte das despesas obrigatórias, sobrando muito pouco" para o resto.

Silvia Matos, da FGV-Ibre, aponta na mesma direção. Para ela, adiar o ajuste fiscal mantém o juro alto e torna a dívida "inviável de ser financiada".

É esse aperto fiscal, mais do que o crescimento do trimestre, que reduz o espaço de manobra de quem assumir a Presidência em 2027.

O terceiro risco é climático. Serrano projeta PIB negativo para a agropecuária em 2027 por causa do El Niño, que promete "preços dos alimentos mais altos, reduzindo renda disponível" e atinge safras e pecuária. Matos também prevê contração agrícola e admite: "pode ser pior".

O que diz o mercado internacional

A consultoria britânica Capital Economics também errou a projeção, com estimativa de 0,3% de crescimento. Mesmo assim, ela vê na desaceleração espaço para um corte de 0,25 ponto na Selic em setembro.

O economista Liam Peach projeta o PIB do terceiro trimestre entre 0,2% e 0,3%. Ele classifica esse ritmo como dependente, em parte, do resultado da eleição presidencial de 2026.

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A desaceleração do consumo das famílias já havia sido registrada no resultado divulgado nesta terça-feira (1º) pelo IBGE.

O fôlego fiscal que falta para 2027

Nenhum dos três riscos se resolve por decreto no primeiro dia do próximo mandato. A dívida em 82,5% do PIB levou anos para chegar a esse patamar, e o El Niño já está em curso.

A pergunta que fica é se o próximo governo vai ter fôlego fiscal para reagir a uma safra ruim, ou se vai herdar os dois problemas ao mesmo tempo.